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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir?... São osfatos. É a História. Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! Não há crime em se estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na Repartição, diante do Secretário-Geral. E a rapariga às gargalhadas!... Agora onde há crime, e horrendo, é na perseguição ao irmão, ao pagador, empregado excelente, de um talento raro... E o dever de todo o homem de bem, que preze a dignidade da Administração e a dignidade dos costumes, é denunciar a infâmia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!

- Que fizeste?

- Enterrei na ilharga do Sr. Governador Civil a minha boa pena de Toledo, até à rama!

O Barrolo, impressionado, beliscava a pele do pescoço. O piano emudecera; mas Gracinha não se movia do mocho, com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida diante da larga folha onde se enfileiravam, na letra apurada do Videirinha, as quadras triunfais dos Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu naquela imobilidade sufocada o despeito que a trespassava. Sensibilizado, para a libertar, lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com carinho nos pobres ombros vergados que estremeceram:

- Tu não dás conta desse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, à boamoda do Videirinha... Mas primeiramente sê um anjo... Grita ai no corredor que me tragam um copo d'água bem fresca do Poço Velho.

Ensaiou as teclas, entoou versos, ao acaso, num esforço esganiçado:

Ora na grande batalha, Quatro Ramires valentes...

Gracinha desaparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Então o bom Barrolo, que diante da sua terrina da Índia enrolava um cigarro com pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre Gonçalo, da certeza que lentamente o invadira:

- Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha é um mulherão soberbo! Mas o que eunão acredito é que ela se fizesse arisca. Com o Cavaleiro, bonito rapaz, Governador Civil?... Não acredito. O Cavaleiro saboreou!

E com as bochechas luzidias de admiração:

- Aquele velhaco! Para cavalos e para mulheres não há outro, em Oliveira!

V

A Gazeta do Porto, com a correspondência vingadora, devia desabar sobre Oliveira na quartafeira de manhã, dia dos anos da prima Maria Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que não temesse (ressalvado pelo seu pseudônimo de Juvenal) uma briga grosseira com o Cavaleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidários servis e façanhudos como o Marcolino do Independente - recolheu discretamente a Santa Irenéia na terça-feira, a cavalo, acompanhado pelo Barrolo até a Vendinha, onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo Titó. Depois, para recordar os lugares memoráveis em que na sua Novela se encontravam, com desastrado choque de armas, Lourenço Ramires e o Bastardo de Baião, tomou o caminho que, atravessando os pomares da espalhada aldeia de Canta-Pedra, entronca na estrada dos Bravais.

Num trote folgado passara a Fábrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que esvoaçam do pombal da Fábrica. E entrava no lugar de Nacejas - quando, à janela duma casinha muito limpa, rodeada de parreiras, apareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqué de pano azul e lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós ondeados. Gonçalo, sopeando a égua, saudou, sorriu suavemente:

- Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?

- Vai, sim senhor. Embaixo, à ponte, mete para a direita, para os álamos. E é sempre a seguir...

Gonçalo suspirou, gracejando:

- Antes desejava ficar!

A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gozar a fina face morena, entre os dois craveiros da janelinha, na casa tão bem caiada.

Nesse momento, ao lado, duma quelha enramada, desembocava um caçador do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era um latagão airoso, que todo ele, no bater dos sapatões brancos, no menear da cinta enfaixada em seda, no levantar da face clara de suíças louras, transbordava de presunção e pimponice. Num relance surpreendeu o sorriso, a atenção galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre ele, com lenta arrogância, os belos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente, sem se arredar da égua na ladeira estreita, quase raspando pela perna do Fidalgo o cano da caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela seca e de chasco com um bater mais petulante dos tacões.

Gonçalo picou a égua, colhido logo por aquele desgraçado temor, aquele desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco, qualquer ameaça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar, a abalar. Embaixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote, espreitou para trás, para a branca casa florida. O mocetão parara, encostado à espingarda, sob a janela onde a rapariga morena se debruçava entre os dois vasos de cravos. E assim encostado, depois de rir para a moça, acenou ao Fidalgo, num desafio largo, com a cabeça alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista flamante.

(continua...)

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