Por Camilo Castelo Branco (1862)
- Ó Céus!
- É a repetição da calúnia, que o Sr. Silvestre nos está dando? - interpelou o juiz.
O juiz recolheu-se ao santuário da sua consciência. Reinou profundo sossego de meia hora, finda a qual os autos passaram à mão do escrivão, que leu a sentença.
Fui condenado em cinquenta mil réis de multa, três meses de prisão e custas do processo. Bati, como Galileu, o chão com o pé e disse: “Seja como for, o Sr. Sanches é um infame.” Paguei a multa e custas e remi o tempo de prisão a dinheiro.
Anselmo Sanches recebeu os emboras dos seus numerosos amigos.
A mim deram-me o epíteto de caluniador convicto. Os jornais acharam cordata a sentença e lamentaram que as aberrações do bom senso comprometessem a imprensa em semelhantes derrotas, desprestigiando-a e armando contra ela os inimigos.
Olhei em derredor de mim, procurando amigos que me roborassem a consciência da minha justiça, esmagada a coices de seus sacerdotes. Fugiam das minhas declamações os que me haviam excitado a verberar o doutor.
Tive então nojo mortal da sociedade e de mim, que Deus fizera dum barro menos vil, mas amassado no fel e vinagre do que se chama força da alma e desprezo do martírio.
Entendi que devia corrigir a obra do Criador. A minha primeira operação de reforma foi renunciar para sempre às manifestações da inteligência, e jurei comigo de nunca mais dar na estampa escrito que não abonasse uma conscienciosa parvoíce, talismã de tantos que aí correm, e à conta dos quais muitos meus colegas na imprensa se afortunaram e benquistaram com o mundo.
Acabou, pois, aqui, minha vida intelectual.
Nem já coração, nem cabeça. Principia agora o meu auspicioso reinado do estômago.
Nota
O autor remata aqui o período da sua vida de escritor, omitindo fases importantes e subsídios preciosos para a história literária das províncias do Norte. Em romance dispensam-se bem certas miudezas, que não deleitam, nem fazem chorar nem rir; é porém minha opinião que as menores coisas, na vida dum homem estremado do vulgo, são factos significativos.
Silvestre estudou conscienciosamente o viver íntimo da cidade heróica e enfeixou as suas observações sob o título O mundo Patarata, que, no seu modo de sentir, era sinónimo de mundo elegante.
No vigésimo oitavo caderno dos seus manuscritos li as seguintes páginas, que merecem entrar no templo da imortal memória com seu autor:
Se o mundo elegante no Porto será o mundo patarata de toda parte?
O mundo elegante é a sociedade polida, lustrada, envernizada no corpo e no pensamento, na acção e na palavra, na intenção e na obra.
Patarata quer dizer ostentação vã.
Elegância quer dizer escolha.
Poderão as duas coisas emparceirar-se num mesmo indivíduo, numa mesma classe?
É onde bate o ponto.
Demonstrado que ostentação vã é a máxima pataratice, o mundo elegante geme sob a pressão racionalista da lógica.
Por outro lado, evidenciada a urgência da patarata na vida real, como as visualidades na ilusão teatral, a pataratice é incremento da civilização.
É o luxo o estímulo das artes e da circulação do numerário - dizem os economistas infalíveis. A pataratice é a arte amestrada pelo aguilhão do luxo. Ora, se o mundo elegante é o consumidor das espécies, que constituem o luxo, e o fomentador da prosperidade das artes, segue-se que o mundo elegante é o mundo patarata.
Crê nisto toda pessoa que já ouviu dizer que há uma coisa chamada lógica pela qual se prova que o mundo cabe num cesto, se o cesto for maior que o mundo.
A elegância também é sinônimo de beleza.
A sociedade elegante não pode ser substancial e formalmente a sociedade bela.
A tomarmo-la assim, fumigaríamos com incenso derrancado olfactos modestos que já espirrariam contra a lisonja.
A lisonja é a assafétida das boas almas, das almas escolhidas, ou elegantes.
Na sociedade escolhida há pessoas que têm a consciência de serem feias.
Aí se compreendem todas as caras possíveis desde a malaia até à georgiana.
Todas as inteligências imagináveis.
Todas as progénies admissíveis na ordem da propagação.
Todas as virtudes, ainda as mais hipotéticas.
Há uma sociedade que não tem obrigação de ser outra coisa logo que é elegante.
A sua missão é andar à tona do mar revolto da vida como as alforrecas.
O pássaro é um animal volátil, o peixe é um animal nadador, o réptil é um animal rasteiro, o elegante é um animal... elegante.
Diz A. Karr que Deus fizera a fêmea e o homem fizera a mulher.
Ora, a mulher não se limitou a fazer do macho um homem: fez uma brochura dependente do engenho do encadernador.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.