Por Camilo Castelo Branco (1864)
Levantou-se pensativo desta operação aritmética; saiu do gabinete; e encontrou Palmira a lembrar-lhe a conveniência de arrematar um camarote de S. Carlos, que estava a lanços. Afonso respondeu tristemente: "Pois sim." Palmira não viu linha alguma extraordinária no rosto do amante, beijou-lhe os olhos e disse: "És um anjo!"
Desde aquele fatal dia dos cálculos sobre as despesas de vinte anos, Afonso cismava a miúdo nos dez que restritamente lhe ofereciam os seus presuntivos cabedais, contando já com o falecimento da mãe. "Infame cláusula dos meus cálculos!", dizia ele com os olhos a reverem lágrimas de remordente remorso, treze anos depois.
Palmira, afinal, deu tento da melancolia de Afonso; e antes de consultar-lhe a causa, perguntou se a não amava já. O interrogatório afligiu o moço. Reconheceu que faltavam naquela mulher as sérias qualidades de espirito para lhe escutar o motivo de suas abstracções, em meio dos favores da fortuna.
Manifestou Palmira o seu insofrido orgulho. Simulou um recolhimento de amargura cavilosa. Pranteou-se, perguntando ao Céu, em atitude trágica, se a expiação começava tão cedo. Afonso acariciou-a, já condoído dela, e revelou, com desdém de seus próprios temores, a causa mesquinha deles. Palmira observou-me que a fortuna dela, à sua parte, excedia o valor de vinte e cinco contos, e propôs-lhe requerer-se divórcio desde logo. O bizarro moço recusou a proposta, ajoelhando em espirito à generosa oferta de Palmira.
Passou a nuvem. Requintaram os gozos e as despesas. Projectaram-se passeios ao estrangeiro. D. José de Noronha era grande parte e conselheiro nestes prospectos de recrescente felicidade. Lembrou Palmira a Semana Santa em Sevilha. Foram a Sevilha, detiveram-se por Espanha dois meses até pressentirem uns longes de fastio. Voltaram a Lisboa no antegosto de planeadas excursões à Itália. Afonso de Teive entrou no seu escritório, em busca de cartas, e abriu primeiro uma das duas de Mafalda, antes que Palmira o surpreendesse a lê-las. Rezava assim a primeira:
Meu primo. A nossa mãezinha está muito adoentada e causa receios ao médico de Braga, que vem aqui todos os dias. Não me autorizou a chamar-te; mas eu, depois de consultar meu pai, resolvi participar-te isto e pedir-te que venhas ver esta santa. Ela não cessa de chorar e rogar a Deus por nós. Vem pedir-lhe que, ao sair deste desterro, continue a pedir no Céu por ti, por mim, e por todos os infelizes. Tua prima, Mafalda.
Era datada esta carta em 6 de Abril de 1852.
A outra, datada em 18 do mesmo mês, continha o seguinte:
Meu primo. Acaba de expirar tua mãe. São cinco horas da manhã. Morreu-me nos braços. Dava três horas o relógio quando ela disse que havia de expirar quando raiasse o dia. Assim foi. Falou de ti até à última e ordenou-me que te mandasse uma carta, que ela escreveu no segundo dia de sua enfermidade. Admirei que me não respondesses ao menos à que eu te escrevi então. Deus sabe o que vai na tua vida. A.santa lá está no Céu: ela conseguirá o que for melhor para ti, em conformidade com os decretos do Altíssimo. Aqui está meu pai a cuidar nestes tristes preparativos para o enterro. Já dobram os sinos. Não me deixam escrever as lágrimas. Adeus. Afonso. Tua prima, Mafalda.
Afonso, concluída a leitura desta segunda carta, bradou: "Meu Deus, meu Deus!", e caiu de joelhos, escondendo a face nos estofos de uma otomana. Acudiu Palmira aos gritos. Afonso ergueu-se, com as mãos no rosto e, abafando os soluços, pôde dizer: "Morreu minha mãe!"
- Chora no meu seio - disse ela comovida -, chora meu querido filho! Tens ainda este grande coração que te abriga na tua angústia.
Estas palavras alancearam mais a alma do meu amigo. Pareceram-lhe um sacrilégio, uma injúria à memória da mulher cuja vida fora uma enchente de virtudes.
"O coração da adúltera a dar abrigo à dor de um filho!" Era a consciência que assim lhe gritava, não era ainda o tédio. Era, talvez, a repugnância de se encostar ao seio da mulher por amar de quem deixara morrer sua mãe, esquecida, desprezada mesmo, lembrada algumas vezes como senhora medra da casa, cujo herdeiro ele era.
Afonso pediu a Palmira que o deixasse sozinho. Ferida em sua vaidade, considerando-se inútil em consolar o homem fraco, o homem debulhado em lágrimas, Palmira cruzou os braços e abanou a cabeça.
O atribulado moço não vira aquele gesto; mas ouvira as palavras que o denunciavam:
- Não basta o amor da mulher amante para consolar as saudades de uma mãe. Eu também a tinha quando te amava, e abriguei-me no teu coração. Que diferença...Afonso irou-se; mas abafou a cólera num gesto de impaciência. Palmira compreendeu-o, retirouse lançando os olhos às duas cartas, que estavam abertas.
Encostou-se à mesa e leu-as sem lhes pôr mão. Lidas, sorriu-se, remexeu ainda na língua uma ironia infame, não ousou proferi-la, e saiu. E que a mulher impura muitas vezes espumara o pus do cancro do orgulho, que doía, na face imaculada de Mafalda, que o moço indiscreto algumas vezes, com fatuidade, relembrava como desgraçada na sua amorável dedicação.
Assim que Palmira saiu, Afonso, a tremer calafrios, deslacrou a carta de sua mãe.
Dizia assim:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.