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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Quando era ministro Joaquim Murtinho – da Fazenda – é preciso saber – uma moça requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois de ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que tal autorizasse.

Nos Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos – autorizados pelo congresso – permitem. Nas outras repartições, não; é abuso.

Mulher não é, no nosso direito, cidadão.

Está sempre em estado de menoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.

Spencer , na Introdução à Ciência Social observa que desde que o serviço militar obrigatório foi instituído em França, para todos os rapazes entre dezoito e vinte e um anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os serviços que competiam àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os recrutas foram pouco a pouco diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído na geração...

Krafft-Ebbing diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso cumprimento da . Diana D’Anteno por ter escrito o seu interessante opúsculo:

Quereis’ encontrar Marido? – Aprendei!

Hoje, Rio, 26-6-1919

A CASA ÚNICA

– Como foi então, a história?

– Ouve.

– Estou ouvindo.

– Eu me formei muito cedo, antes dos vinte e dois anos, como tu sabes. Logo que me formei, graças ao meu Lugar de praticante dos Correios e o rendimento de algumas apólices, pude alugar um escritório, comprar um anel simbólico, um guardachuva de castão de ouro, uma pasta de couro, enfim todo o arreamento de um grande advogado. Tive a imagem disso, antes da sensação... Passei a trabalhar nos Correios à noite; e, durante o dia, logo pelas primeiras horas vinha para a cidade, ia ao escritório, onde tinha um empregado de sociedade com o vizinho. Sentava-me então solenemente à secretária e esperava os clientes. Não vinham. Eu ficava uma, ou duas horas a folhear uns manuais, aborrecia-me e saía, tendo antes o cuidado de dizer ao pequeno, com muita ênfase: “Se vier alguém procurar-me, diga que fui almoçar e já volto.” – Ias almoçar mesmo?

– Ia mesmo. Ainda havia dinheiro, não tinha torrado as apólices. Saía com pasta, fraque, guarda-chuva, etc., e ia ao Pascoal tomar um aperitivo e...

– Foi pena eu não te conhecer nesse tempo!

– Porque?

– Todos os dias te esperava, para pagares-me um também.

– Não fizeste falta.

— Como!

– Pois eu mesmo me encarreguei de travar relações com poetas, jornalistas e literatos e não havia dia em que não levasse um de reboque. Precisava da imprensa, para os meus planos...

– Que não soubeste executar.

– Vou te dizer porque.

– Estou ansioso pelo desfecho.

– Ia ao Pascoal com o Guedes, por exemplo, que hoje tem ou vai ter, cem mil-réis por mês que o Alves lhe dá, lá da sepultura. Começávamos a conversar eu, pasta, anel e guarda-chuva de cabo de ouro e outros apetrechos forenses e desandávamos a discorrer sobre negócios de versos, jornais e outras histórias correlativas.

– Foste sempre dado a estas coisas?

– Como todo mundo... Escrevi nas revistas de estudantes, fiz o discurso da turma; mas sempre tive medo dessas coisas de literatura.

– Porque?

– Porque? Por causa dos gramáticos que nunca se entendem.

– Mas os advogados?

– A coisa é mais escondida; não é tão...

– E quando vão para os apedidos?

– A crítica literária não intervém... Deixa-me contar a história com os diabos!

– Conta.

– Onde eu estava mesmo?

– Ias almoçar e encontravas o Guedes

—Bem. Muitas vezes, o Guedes seguia-me até o hotel e almoçávamos juntos. Em geral, porém, eu ia só. Almoçava, vinha tomar café fora, adquiria um charuto e lá ia eu, pasta, guarda-chuva de ouro, fraque, anel, etc., pela Rua do Ouvidor abaixo até a Rua do Carmo, onde tinha o escritório. Antes de entrar, perguntava precavidamente ao rapazote: José, veio alguém? Ao que ele respondia desconsoladamente: Ninguém, seu doutor. Entrava, descansava a pasta, etc., e esperava, mas...

– Como é que querias que viesse alguém, se não anunciavas?

– Não. Anunciei nos grandes jornais, durante muito tempo; e foi mesmo essa história de anúncios uma das causas de eu deixar a advocacia, porque...

– Como?

– Eu te conto. Tinha um camarada do colégio que fora sempre dado a esse negócio de revistas e jornais ... Era o Fontes... Um belo dia, apareceu-me ele no escritório e disse-me! – Castro, estou publicando uma revista – Os Sucessos... – Não sei se tu conheces? “Não”, disse-lhe eu. Ele, o Fontes, abriu uma pasta igual à minha, e tirou de lá três números da tal revista. Folheei-os, achei-os bonitos, bem impressos, e enquanto isso o Fontes gabava os méritos de sua publicação. Perguntei-lhe com franqueza o que queria. “Primeiro, disse-me ele, a tua colaboração”...

– Colaboraste?

(continua...)

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