Por Coelho Neto (1890)
"Não senhor, há de ser hoje mesmo, vamos ao antro!" O meu amigo quis ainda argumentar, mas eu fui inflexível: "Há de ser hoje mesmo." Meti-me num banho morno, devorei duas costeletas e, às onze horas, com o luar, partimos para a serra com vinte e tantos cães. Éramos dezoito ao todo, dezoito homens ferozes. Fomos seguindo os passos relentados do cavalo do guia, e, para a madrugada, chegando a uma estreita garganta, senti o meu cavalo estremecer e logo um dos cães partiu galgando umas rochas e desapareceu. Estávamos junto de uma grande árvore e olhávamos na direção que havia seguido o cão, quando o vimos reaparecer murcho, farejando os caminhos; os outros andavam longe. Vendo eu que ainda não havíamos encontrado a fera, acendi um charuto e dei o sinal de partida... Mas tu fumas quando caças, Crebillon?
— Eu fumo sempre. Já os nossos cavalos iam caminhando quando o cão investiu contra a grande árvore, ladrando, ganindo furiosamente, a arranhar o tronco como se quisesse subir por ele acima. "A bicha está ali!" — disse um dos homens e tornamos todos, pondo cerco à grande árvore. Levantando os olhos, e procurando ver por entre as folhas, descobri a fera entre os altos ramos. Os olhos luziam-lhe como duas brasas e o meu cavalo tremia que era uma vergonha. Ainda assim levei a arma à cara e pum! A onça veio abaixo...
— Morta?
— Qual morta! Viva como um alho... Pois se o meu cavalo tremia que era um horror. Ah! Meus amigos, que berro! O cavalo empinou e eu senti as barbas do animal no meu rosto. Estou morto! — disse com os meus botões, mas sem perder a calma, soprei uma baforada de fumo, e foi a minha salvação! A onça começou a tossir e a espirrar dando-me tempo para arrancar dos coldres a garrucha e, sem precipitação, encostei-lhe o cano da arma à fronte e disparei. O animal rolou pesadamente na terra. Era um monstro! Aí têm vocês toda a minha aventura. A quem devo a vida?
— Ao charuto, sem dúvida.
— Ao charuto! E dizem que o fumo faz mal.
— E quando chegaste da Bocaina? — perguntou Ruy Vaz.
— Ontem à noite.
— E ainda haverá por lá alguma onça?
— Não, aquela era a última.
— Bem, então agora podes cuidar da casa.
— Sim, posso. Encarou o romancista e exclamou: Que diabo! Parece que vocês desconfiam de mim!
— Não, ninguém desconfia de ti, Crebillon. Mas deves compreender que é um suplício vivermos em uma casa como esta sem uma cadeira e com esse soleníssimo fogão apagado. Confiamos em ti, mas...
— Mas quê?
— Nada...
— Pois na próxima segunda-feira os senhores terão aqui os trastes. Eu só tenho uma palavra.
Era noite fechada. João de Deus já havia iluminado a casa quando os rapazes entraram e subiram ao pavimento superior para ver os preciosos móveis do presidente. Crebillon não parecia muito disposto a mostrar os seus haveres, tinha certo pudor querendo adiar para o dia seguinte a exposição, mas Ruy Vaz forçou a entrada e, no quarto, o romancista pasmou da sobriedade:
— É isto, Crebillon?
— Sim senhor, nada mais.
— Nem cama, ao menos?
— Nunca me deitei em camas. Nasci em rede e em rede hei de morrer.
A rede oscilava entre a porta e a janela. Havia uma pequena mesa de pinho envernizado, duas cadeiras, uma canastra e vários embrulhos que Crebillon começou a desfazer resmungando:
— Vocês têm a mania do fausto... pois, meus amigos, não há como a modéstia. O luxo excessivo entibia o caráter e amolece o físico. Lancem vocês um olhar ao passado e hão de ver que as nações começam a enfraquecer à medida que se vão tornando suntuosas: Babilônia caiu com o devasso Nabonahid. Sempre vivi assim detestando a pompa e sou um forte, sou um homem! Acho que o luxo deve ser comedido — uma boa sala de jantar, um salão deslumbrante, mas no quarto de dormir um duro grabato ou uma rede, nada mais. As camas enfraquecem e depravam. Aqui está a minha mobília: a rede, a mesa em que somo parcelas e escrevo à família, duas cadeiras, a minha espingarda inglesa, os couros das feras que tenho abatido, um gogó de macaco...
— Gogó de macaco! Para que diabo queres gogó de macaco?
— Para a minha asma. Quando me vem o acesso bebo um d'água pelo gogó e fico logo curado.
— E aquele couro que ali está, perto da mesa; é de alguma fera?
— É de cutia. Uma cutia levada dos diabos, que matei no Desengano. Persegui-a durante todo um dia a cavalo, com vinte e quatro cães e só ao cair da noite consegui matá-la à beira de um açude.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.