Por Machado de Assis (1876)
Ninguém esperava por ele em Andaraí. Entrando na chácara, — era de noite, — viu Estácio que a sala que ficava no ângulo esquerdo da frente da casa, estava alumiada e tinha gente. A sala ficava ao rés-do-chão e as janelas estavam abertas. Parou a pouca distância, e pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Matos jogando o gamão; a mulher do advogado falava a D. Úrsula e Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo Mendonça diante de si.
Estácio deu volta aos fundos da chácara, e entrou pela varanda. Os escravos que o viram chegar, deram sinal da novidade, com vozes de alegria, que, aliás, não chegaram até pessoas da sala. Estas só souberam do recém-chegado quando ele assomou à porta. A satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estácio distribuiu abraços e apertos de mão. Melchior, que se deixara ficar de lado, foi o último com quem falou.
O Dr. Camargo veio? perguntou D. Úrsula ao sobrinho, logo depois que este cumprimentara a todos.
Não, respondeu Estácio, a doente não pode escapar, mas ainda a deixei com vida.
Imagino a impaciência dos herdeiros.
Esta observação filosófica do coronel-major não teve nenhum efeito. Melchior, que a reprovara interiormente, fez mudar a conversa, informando-se da família de Camargo. Estácio deu todas as notícias que podiam interessar; depois, falou de alguns incidentes da viagem; enfim, retirou-se por alguns minutos.
Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na escada. Subiram juntos e juntos entraram no quarto.
Agora que estamos sós, perguntou Mendonça, houve por lá alguma coisa?
Nada.
Tanto melhor!
Um escravo entrou no quarto, a fim de servir a Estácio; Mendonça, ansioso por lhe falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicações.
Recebeste a minha carta? disse ele.
Recebi.
Não esperavas por ela, aposto..
Não.
Como eu não esperava escrevê-la. Estás aborrecido?
Estou cansado.
Naturalmente, assentiu Mendonça, abrindo um livro que achou sobre a mesa e tornando-o a fechar.
O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quais Mendonça tornou a abrir o livro, examinou uma espingarda de caça, preparou um cigarro e fumou. O escravo ajudava o senhor a mudar de roupa. Estácio continuava mortalmente calado; Mendonça falou algumas vezes, sobre coisas indiferentes, e o tempo não correu, andou com a lentidão que lhe é natural, quando trata com impacientes. Logo que Estácio se deu por pronto, e o escravo saiu, Mendonça voltou diretamente ao assunto que o preocupava.
Estava ansioso por ver-te, disse ele. Não nos é possível falar agora; não temos tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela felicidade...
Parece que só esperavas a minha ausência?
Creio que não. Já antes de seguires, começava a sentir alguma coisa nova, que vim a descobrir ser paixão violenta.
Helena ama-te?
Com igual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum afeto.
Tratarei de consultá-la.
Mendonça não pôde continuar, porque Estácio descia a escada ao dar-lhe a última resposta. Mendonça desceu também. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de uma janela conversava Helena com o padre. O chá foi logo servido e a conversa tornou-se geral, ainda que sem grande animação. Melchior falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que saiu; foi o último. Na chácara, dirigindo-se ao portão, ergueu os olhos ao firmamento, não para ver a lua e as estrelas, senão para subir a região mais alta. O que disse ninguém o soube, mas o anjo das rogativas humanas porventura colheu em seu regaço os pensamentos do ancião, e os levou aos pés do eterno e casto amor.
CAPÍTULO XVIII
Helena, disse Estácio no dia seguinte, logo que pôde falar a sós à irmã, — sabes por que vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me dizendo haver alcançado de ti uma promessa de casamento.
É verdade.
É verdade?
Até ao ponto em que a minha vontade tem um limite, que é a sua. Por mim só nada posso decidir; mas não creio que você se oponha de nenhum modo. Não é certo que deseja a minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte ao grande tanque. Estácio ficou algum tempo a olhar para a água.
Não entendo, disse ele enfim.
Por quê?
Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão violenta, paixão que parecia conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor único e forte, uma mulher despose um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não vulgar e muita vez justificável. Mas que este casamento seja para ela felicidade, confesso que não o poderei entender nunca.
Recusa então o seu consentimento?
Não recuso; desejo compreender.
Nada mais simples, retorquiu a moça.
Ah!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.