Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
De 1831 a 1836 foi grande chefe do partido moderado - o dominante: exerceu a maior e a mais patriótica influência na política do império, distinguindo-se sobre todos como a mais forte e pujante coluna da monarquia constitucional; fez ministros e nunca foi ministro, aconselhou nomeações de altos funcionários públicos e nunca teve emprego ou comissão lucrativa, nem empregou parente algum, salvou a ordem e mil vidas, e escapou, levemente ferido, a uma tentativa de assassinato a tiro de pistola; não desanimou por isso, prosseguiu em sua vida política de dedicação cívica e gloriosa, e quatro anos depois, exemplo admirável de todas as virtudes públicas e privadas, morreu deixando a esposa e filhas (todas dignas dele) em honradíssima pobreza!...
A vida de Evaristo foi a mais pura e a mais doce das harmonias.
Evaristo foi primeiro homem do seu tempo pela grandeza, pela honestidade, pela pureza, e pelos sãos e benéficos efeitos de sua influência política.
Evaristo é legendário.
Essa mesma casa da América e da China ainda nos oferece, embora não historicamente gloriosa, ao menos, porém, lembrança doce, mesmo porque é lembrança de senhores e de doces.
Antes do estabelecimento da confeitaria do Carceller; ocuparam o pavimento superior ou o sobrado daquela casa do atual número 40 três senhoras naturais da província de Minas, duas irmãs e uma sobrinha, que, ou por nome de família, ou da localidade do seu nascimento, eram chamadas Paracatus.
As senhoras Paracatus não deixaram, que me conste, nomeada de belas: se foram bonitas, creio que procederam de modo a não fazê-lo notar, o que não prejudica; antes abona a sua reputação; celebrizaram-se porém pela doce indústria, que souberam explorar.
Do sul ao norte e de leste a oeste da cidade do Rio de Janeiro, as senhoras Paracatus foram por unânime aclamação do povo declaradas e proclamadas primeiras inexcedíveis e incomparáveis doceiras.
As freiras da Ajuda então e ainda até os nossos dias tinham e mantiveram primazia em confecção de empadas e de pastéis; mas em doces secos e de calda foram completamente vencidas pelas senhoras Paracatus.
Os moços daquele tempo, septuagenários e octogenários de hoje, juram pela pureza e honra do seu paladar que as Paracatus ainda não foram igualadas, como doceiras, e a um desses velhos ouvi dizer, quase chorando de saudades:
- Ah! meu amigo! tudo é possível ao progresso do século, ainda mesmo em aperfeiçoamento de doces brasileiros; mas em desmamadas, como as das Paracatus, não! elas morreram sem deixar o segredo das desmamadas.
O certo é que não havia banquete de luxo, banquete de casamento, de batizado, ou de festa aniversária de ricos da cidade em que a sobremesa (o desert) não fosse preparada e fornecida pelas Paracatus.
CAPÍTULO 12
Como se continua a viagem pela Rua do Ouvidor; e depois de se considerarem de passagem os ursos de Mr. Cassemajou e o fronteiro Profeta, deixa-se de falar de uma casa onde reinaram quatro damas, nenhuma das quais era mulher, visita-se o Hotel da Europa, e aí se encontram saudosas lembranças do Clube dos Radicais, e o berço do Clube da Reforma com janelas para a Rua do Ouvidor. Como depois prossegue-se viajando além do encruzamento da Rua da Quitanda, sobre cuja denominação absurda se dizem coisas sepientíssimas, trata-se da casa do Dr. Berquó, o ouvidor, da qual poderia ter saído influência diabólica, se fosse bem fundada certa proposição do Dr. Patroni, que se transcreve: olha-se para a casa do Jornal do Commercio; não se entra porém nela por duas razões, que não são de cabo-de-esquadra; e finalmente contemplase respeitosamente o Grão-Turco, último herdeiro da casa onde floresceram, com sucessiva glória, as lojas famosas dos - Saissel - Wallerstein - e Masset - o antigo, não faltando a esta algumas recordações romanescas.
Viajando agora pelo quarteirão que termina onde a Rua do Ouvidor é cortada pela da Quitanda, confesso-me em penúria de tradições e de notícias curiosas antigas.
Não tenho conhecimento de casas célebres nem de fatos memoráveis do outro tempo. Tudo que há notável é de ontem. Os dois ursos, o antigo e o moderno de Mr. Cassemajou, são nossos contemporâneos, e posto que o primeiro já tenha a idade exigida para ser senador, e o segundo esteja desde alguns anos emancipado, têm sido ambos até hoje da mais perfeita inocência, e o Profeta erguido quase defronte apenas profetiza que os paletós novos que vende hão de em breve tornar-se velhos.
Também não quero ser maldizente, aproveitando a passada, mas moderna celebridade de uma casa que foi riquíssima de episódios febricitantes e de comoções fortíssimas, e onde quatro damas, nenhuma das quais era mulher, inspiraram paixões, que fizeram sair depenados alguns infelizes.
Mas que provaria a história que deixo de referir? Apenas o que todos sabem, isto é, que não são somente as de barato as casas onde muito honradamente se depenam homens como se eles fossem galináceos.
Nada tenho com isso: não entra nas Memórias da Rua do Ouvidor o estudo das moléstias reinantes na cidade do Rio de Janeiro, uma das quais é essa, cujo nome não quero dizer, moléstia feia, corruptora da sociedade, e cujos sintomas mais perigosos para o doente são - os palpites.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.