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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Desde o começo desta complicação do Oriente têm estado constantemente a levar a mão aos copos da espada, de testa franzida para a Rússia: e foram em parte estes actos de arreganho que provocaram a guerra; e se o Governo não tivesse recusado aceitar o memorando de Berlim, a Turquia não se teria mostrado tão resistente nas conferências de Constantinopla; se o Governo não tivesse mandado a esquadra à baia de Besika, a Turquia, que se julgou logo apoiada, não teria sido tão intratável. E agora, que a guerra está finda, põe outra vez a mão na espada a propósito das condições de paz. Resta saber se o país lhe não tirará a espada da mão. Até aqui parece muito resolvido a isso; pelo menos, a julgar pelas petições, protestos, meetings. representações, a maioria liberal da nação quer trabalhar e não guerrear; e firmemente declaram – que nenhuma condição de paz, «nenhuma exigência russa põe em perigo os interesses da Inglaterra, nem mesmo a posse de Constantinopla». E aqui está o argumento: os que querem a guerra dizem que se a Rússia for a Constantinopla, primeiro, põe em perigo a supremacia da marinha inglesa no Mediterrâneo; segundo, abala o prestígio inglês na Índia; terceiro, tornando-se uma forte potência, pode arrancar à Inglaterra o uso do canal de Suez e do seu caminho para a Índia. E, dizem os partidários da paz, nós respondemos a isto: primeiro, que a marinha inglesa é mais forte que todas as marinhas do mundo juntas, e que os Russos não têm nem dinheiro, nem os construtores para criar uma frota que tenha a décima quinta parte da força da nossa, nem num século; segundo, que os hindus não nos amam nem nos desamam pela maior ou menor protecção que nós damos aos seus correligionários maometanos na Europa; e a prova é que, meses depois de nós nos termos batido pelos maometanos da Europa, na Crimeia, os maometanos da Índia mostraram-nos a sua indelével gratidão, fazendo contra nós a mais formidável insurreição dos tempos modernos!; terceiro, que a Rússia, em Constantinopla, tornar-se-ia a mais fraca das potências ocidentais: cercada do ódio da Áustria, da rivalidade da Alemanha e da nossa contínua vigilância, a sua posição seria de um perigo permanente, obrigando-a a armamentos ruinosos, a um estado de incerteza fatal ao seu comércio. E bastaria uma frota nas alturas de Creta para a manter num estado de inacção impotente.

Há muita verdade nesta argumentação do partido da paz, e é esta a argumentação em que se baseiam as representações dos meetings. Mas são estes meetings a expressão exacta do pensamento do país?

Eu tive ocasião de assistir ao grande meeting de Newcastle. Ë verdade que era em favor da guerra. Mas não é das suas resoluções que eu quero contar, é da sua atitude. Havia todas as condições de seriedade: estavam três a quatro mil pessoas; era na sala monstro dos Paços do Concelho; falava o deputado Hammond, homem estimado. E aqui está o que se passou.

Durante um quarto de hora Hammond falou, entre aplausos dos conservadores e assobios dos radicais. Mas, nas palmas ou nos apupos, havia como uma indiferença distraída. As suas imagens mais preparadas, os adjectivos mais sonoros, não conseguiam encadear a atenção; e eu notei que parte da sua vasta audiência se voltava repetidamente para o fundo da sala, onde se eleva uma galeria em anfiteatro, naquela noite tão escura de uma multidão espessa. Era evidente que na galeria alguma coisa produzia aquele frémito de curiosidade. Eu mesmo esqueci o orador que bracejava na plataforma falando da honra da Inglaterra, e apliquei-me a descobrir o caso interessante da galeria. Até que achei. Era um homem, um velho, que estava num dos bancos da frente, imóvel, com uma larga face barbada e risonha. E verifiquei que o que produzia impressão era uma coisa que ele tinha na cabeça; evidentemente o público, como eu, desejava saber o que era, porque, estando a galeria mal alumiada, não era possível, à distância, apreciar-se: não era um chapéu redondo, nem um chapéu de bicos, nem um barrete, nem um capuz, nem um turbante, nem um capacete: o que era então? As risadas convulsivas das pessoas que na galeria o cercavam picavam mais a minha curiosidade e a de três mil pessoas que estavam em baixo, na sala. Pouco a pouco, por um movimento comunicativo, toda a gente se voltara para a galeria, estendendo o pescoço, aguçando o olhar, erguendo-se em bicos de pés; e o deputado Hammond não tinha diante de si, para receber os argumentos políticos, senão nucas e costas. O velho, decerto compreendendo que era o centro daquela curiosidade lisonjeira, ergueu-se com solenidade. Gritaram-lhe logo que viesse para os degraus de baixo! A reclamação era engenhosa; mal ele descesse, a luz de um dos lustres alumiar-lhe-ia a cabeça e poderíamos enfim saber que estranho objecto Lhe cercava as cãs. O velho condescendeu e, apenas entrou no foco de luz, uma gargalhada estridente, ecoante, trovejante, fez oscilar os muros. Tinham visto o que ele tinha na cabeça, o velho! Era uma coroa de louros! Porquê? Era um bardo? Era o Tasso? Era o nosso Camões? Quem o coroara? Que batalha ganhara? Que epopeia compusera? Era um deus marinho?

Enfim descobrimos o motivo: o respeitável ancião estava profundamente bêbado! E, vendo-se acolhido por uma aclamação tão jovial, não hesitou e falou! Falou dez minutos: salvas de palmas virgulavam-lhe cada oração; que triunfo, por Júpiter! O deputado Hammond, na plataforma, lívido, mascando uma bela imagem que começara a desenrolar, cruzava os braços com um desespero trágico: o seu olhar dizia claramente: «Povo vil, nação imunda!» Mas o povo delirava; e eu, aplicando o ouvido, pude vagamente perceber que o velho aconselhava os seus concidadãos a que fossem, em massa, à taverna dos Braços de El-Rei, onde o gim era especialmente bom e as raparigas que o serviam singularmente rechonchudas; aconselhava-o com exaltação, com a fé de um missionário; e, coroado de louro sorria, o bom velho!

Hammond não se conteve, invocou a polícia. Mas então o verás! O público, num frenesi, assobiou a polícia. O quê? Levar, expulsar um homem que tinha verdades tão proveitosas a revelar aos seus compatriotas? Não! E o velho debatia-se entre dois polícias, surpreendido, mostrando as suas cãs, a sua inocência e a sua coroa de louros. A polícia não o expulsou, mas fê-lo sentar. O deputado recomeçou. Mas ai! Quem o escutava? Todos os olhos, todos os corações, são para o bom velho que, sentado no mais alto degrau da galeria, como na glória de um trono, ostentava a sua face honesta e pacífica, com um bom sorriso jovial, coroado de louros, profundamente bêbado.

(continua...)

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