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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Todas as noites, regularmente, marchava para a Corcovada. Lá, começava a encontrar considerações. Sob a direcção do Rabecaz ia-se tornando um dos bons tacos da Villa e já os frequentadores, pelos bancos, em roda do bilhar, fumando e cuspilhando para o chão, lhe admiravam as carambolas. Até ah.i, vendo-o modesto, julgavam-o nullo; mas quando elle, aquecido por aquella sympathia ambiente, começou a parolar, torcendo o buço, deante do seu calice de genebra, foi escutado com admiração, e considerado « rapaz de talento

—É profundote — dizia o Villela, que, sendo o correspondente da Villa para a Verdade, jornal do Porto, era uma auctoridade na Corcovada.

Arthur, pouco a pouco, habituara-se ós physionomias que achava agora menos alvares, e ás conversas que já lhe pareciam menos caturras ; ria mesmo com as graçolas muito applaudidas do João Valente. Ligou-se com o Villela; e tornara-se uma personalidade eminente do botequim quando veio a guerra Franco-Prussiana e se proclamou a Republica em França. Um sopro heroico revolveu subitamente o seu rdmantismo adormecido : — queria ir bater-se pela França como voluntario de Garibaldi ; lia de pé a proclamação de Victor Hugo ; achava sublime que, deante da força desproporcionada da invasão, Gambetta, com os seus exercitos destroçados, com toda a França vencida, se refugiasse, para morrer, no antigo campo entrincheirado das Gallias .

— Grande talento, grande talento . — rosnava-se em redor, com vozes sensibilisadas.

Mas o violento Villela, muito allemão por patriotismo, berrava :

—É bem feito ! Abaixo a França ! É para lhes ensinar a pregarem-nos outra como a do Charles et

Georges . . .

Arthur, exaltado, fallava do messianismo da 1 França, dos direitos do homem, dos boulevards, de Victor Hugo ; injuriava os allemães, os barbaros . . .

— Mas são muito profundos, são muito profundos — gritava o Villela, batendo o pé.

— Qual profundos ! a França é que é catita ! — rugia o Rabecaz. — Para um bocado de can-can, não ha como a bella franceza.

'Podos riam, cada um remexia o seu café ou dava um sorvo á genebra, e Althur, passando as mãos pelo cabellos, declarava que, dentro em dous amos, todo a Europa seria republicana.

forrnava-se excessivo ; e mesmo, quando veio a Communa, impressionado pelo lado dramatico da insu rreição, disse-se internacionalista, fallou em Protidhon, exaltou o operario.

Uma noite, e acompanhado pelo Rabecaz que achava a Communa d'arromba entoou a Marselhez:t. O Villela pateou, fez alarido ; a grossa Corcov: da que gostava da animação dos freguezes, correu da cozinha, cercada dos pequenos, escancarando a bocca n'uma satisfação hilare ; e na rua, onde chovia forte, pessoas agachadas sob os guarda-chuvas paravam a olhar pela porta envidragad b.

— Belia orgia ! — disse Rabecaz, ao sahir com Art hur. Bella orgia !

O Vasco soube-o — e aconselhou Arthur com bor dade : não lhe censurava as distracções ; podia ir ao botequim tomar o seu café, jogar a sua partida de bilhar; mas pôr-se com descantes e troças, e fallar em republicas c internacionaes ! Isso devia evital — por si, para não perder o bom nome na Villa, em respeito ás senhoras suas tias, e emfim por elle, Vasco, pelos creditos da pharmacia , . .

Arthur considerou sua liberdade de pensamen•

to indignamente violada por esta exigencia do patrão, e então, com odio á obtusidade conservadora do Vasco, que personificava toda uma sociedade, as suas opiniões foram um momento sanguinarias. Desejou o communismo em Oliveira d'Azemeis ; e as senhoras em casa, ao vêl-o assucarar melancolicamente o seu chá, mal imaginavam que, sob aquella testa pallida, apoiada á mão, rolavam idéas de incendios vingadores e de exterminações de classes.

Mas estas imaginações ferozes bem depressa se dissiparam. Por esse tempo, o Villela, por complicações de demandas e de penhoras, tinha-se achado imprevistamente possuidor d'um prelo, e viera-lhe a idéa de fundar um jornal em Oliveira. Fallou a Arthur que flammejou logo n'um enthusiasmo desordenado,

Viu-se immediatamente, do banco da redacção, dominando Oliveira, temido na Assembleia, sendo uma força no districto, citado em Lisboa. Achou um titulo : A Nova Era; e foram, durante semanas, entre elles, umas conferencias deliciosas sobre o formato, o papel, a casa da redacção, a politica e a litteratura do jornal. Arthur queria publicar os Esmaltes e Joias em folhetins e defender os principios da Revolução Franceza. Villela queria deitar abaixo o administrador do concelho. Foi Arthur que redigiu 0 Prospecto : fallava da Humanidade, de Victor da Justiça e de Mozart. O Rabecaz declarou-a

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(continua...)

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