Por Eça de Queirós (1900)
Nem atendeu aos protestos desolados com que o Barrolo acudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'água-de-colônia, abancou à mesa - onde Gracinha colocava sempre entre flores, para ele trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, num desses soltos fluxos de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma Correspondência rancorosa para a Gazeta do Porto contra o Sr. Governador Civil. Logo o título fulminava - Monstruoso atentado! Sem desvendar o nome da família Noronha, contava miudamente, como um ato certo e por ele testemunhado, "a tentativa viloa e baixa da primeira Autoridade do Distrito contra a pudicícia, a paz de coração, a honra de uma doce rapariga de dezesseis primaveras!" Depois era a resistência desdenhosa - "que a nobre criança opusera ao Don Juan administrativo, cujos belos bigodes são o espanto dos povos!" Por fim vinha - "a desforra torpe e sem nome que S. Exa. tomara sobre o zeloso empregado (que é também um talentoso artista), obtendo deste nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a família de três delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais árida e escassa das nossas Províncias, por o não poder empacotar para a África no porão sórdido duma fragata!" Lançava ainda alguns rugidos sobre "a agonia política de Portugal". Com pavor triste, recordava os piores tempos do Absolutismo, a inocência soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Príncipe sendo a expressão única da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu agente - "este grotesco Nero que, como outrora o outro, o grande, em Roma, tentava levar a sedução ao seio das famílias melhores, e cometia esses abusos de poder, motivados por lascívias de temperamento, que foram sempre, em todos os séculos e todas as civilizações, a execração do justo!" - E assinava Juvenal.
Eram quase seis horas quando desceu à sala, ligeiro e resplandecente. Gracinha martelava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barrolo (que não se arriscara a um passeio solitário) folheava, estendido no canapé, uma famosa História dos Crimes da Inquisição que começara ainda em solteiro.
- Estou a trabalhar desde as duas horas! - exclamou logo Gonçalo, escancarando a janela. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra de Justiça... Desta vez o Sr. André Cavaleiro vai abaixo do seu cavalo!
Barrolo fechou imediatamente o livro, com o cotovelo nas almofadas, inquieto:
- Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado diante dele, com um risinho suave, um risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:
- Oh! quase nada. Uma bagatela. Apenas uma infâmia.. Mas para o nosso Governador Civil infâmias são bagatelas.
Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires esmoreceu, apenas roçado, num murmúrio incerto.
O Barrolo esperava, esgazeado:
- Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
- Pois uma maroteira imensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido, espezinhado,expulso! Com a família.. Para o inferno, para o Algarve!
- O Noronha pagador?
- O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a história lamentável. O Sr. André Cavaleiro namoradíssimo, todo em chamas pela irmã mais velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estrupidos cada manhã por diante da janela, a ladear na pileca! Até lhe soltara, ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade, impassível.
Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada ardente em que ele a tratava de "Ninfa, de estrela da tarde..." Enfim, uma sordidez funambulesca!
O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, num tumulto de gemidos desconcertados e ásperos.
- E eu não ter ouvido nada! - murmurava o Barrolo, assombrado. - Nem no Club, nem na Arcada...
- Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha. Arremessadopara o fundo do Alentejo, para um sitio doentio, coalhado de pântanos. E a morte... E uma condenação à morte! A esta aparição da Morte, surgindo dos pântanos, Barrolo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:
- Mas quem diabo te contou tudo isso?
O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdém, com piedade:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.