Por Camilo Castelo Branco (1862)
Anselmo, como visse que a imprensa e a opinião pública estavam com ele contra o jornal, por abuso. O responsável declinou sobre mim, e eu fui sentar-me no banco dos réus em polícia correccional.
O advogado de acusação era um jurisperito de grande nomeada e uma gravidade de colarinhos assustadora. O meu patrono foi, nomeado ex-officio: era um bacharel verde em anos e sorvado em inteligência.
A acusação fez o penegírico dos séculos áureos em que não havia imprensa, nem as vidas das famílias estavam expostas aos enxovalhos de escrevinhadores devassos.
“Sr. Dr. Juiz de Direito!”, exclama ele, “o santuário da família não pode continuar à mercê destes esfoladores de reputações! A mulher casada treme no pedestal da sua virtude; o esposo honrado, num país de imprensa livre, anda como ovos em peneira; a virgem honesta é estrangulada no seu decoro, quando se embala no inocente berço das suas afectuosas aspirações aos sacratíssimos, direitos da maternidade. (Neste ponto, o escrivão do processo limpou as lágrimas ao lenço vermelho do tabaco.) Sr. Dr. Juiz de Direito, prossegue o Demóstenes, com os braços em arco e o semblante em lavaredas de transporte. Todos temos mulher e filhas, filhas estremecidas e esposas ternas. Que importa a inviolabilidade destas santas afeições, se a pena do foliculário, estilando o negro fel da calúnia, nos verte no coração a peçonha da desordem doméstica e nos expõe às vaias públicas?! Um marido vive em boa paz com sua mulher: vem um refalsado escritor e diz-lhe: “Tua mulher é desleal!, tua mulher roubou-te os doces mimos!” Horrível, Sr. Dr. Juiz de Direito!, horrível! Desde este momento a paz da família é como diz Job; o esposo tornou-se a fábula do povo; e a esposa, maculada sem mácula, aí fica infamada em si e na sua posteridade, por todos os séculos dos séculos! O cidadão probo e laborioso, se cuida que a honradez de sua vida o há-de escoar dos tiros da calúnia, engana-se.
Aqui está o exemplo palpitante da actualidade. O Dr. Anselmo Sanches alcançou o quadragésimo ano de sua existência, sem que o ódio ou a inveja lho denegrisse com a baba pestilente da aleivosia. Todas as famílias se honraram de o terem na sua confiança. Em todas as casas honestas ele tem tido acesso como amigo, como irmão e como brasão das virtudes familiares em que ele é conselheiro, e baluarte, sem rebuço o digo, e baluarte -, hei-de chamar-lhe sem lisonja baluarte, paládio sancta sactorum, das virtudes das famílias suas relacionadas. Pois ei-lo aqui pedindo às leis que o justifiquem perante o mundo e impondo ao fel cuspido por infamadora boca que volte ao negro peito donde saiu!...
Esqueceu-me o restante do discurso, que não precisava deter-se mais para ganhar o bom êxito. Os espectadores, os escrivães, o juiz, os esbirros, as testemunhas de acusação, todos estavam comovidos, quando o meu advogado tomou a palavra e disse que eu escrevera um romance sem intenção de ofender designadamente pessoa nenhuma. Anselmo Sanches é um nome - argumentava o causídico - que eu inventara, sem talvez saber que ele já estivesse inventado, e tanto assim era que o seu cliente ficara pasmado de se ver citado aos tribunais para responder pelos involuntários devaneios da sua imaginação opulenta e já provada noutros muitos contos de que ninguém se queixara.
Isto fez sensação.
O doutor pediu licença para dizer que, se era verdade eu não o querer ofender, declarasse que todas as alusões, julgadas pela opinião pública em descrédito dele autor, eram um mero composto de fantasia.
O juiz voltou-se para mim e disse:
- Declara, pois, o Sr. Silvestre da Silva que é romance o seu artigo?
- Nada, não declaro.
- Como?! - tornou o juiz.
- O meu Anselmo Sanches é aquele - redargui apontando a grão-besta.
Este gesto, se fosse visto por gente fina, devia de produzir a comoção que faz nos espectadores o “Ninguém!” de D. João de Portugal apontando o seu retrato na tragédia de Garrett.
- Pois o Sr. Silvestre insiste em caluniar o cavalheiro que generosamente lhe perdoa?!
- Rejeito o perdão de quem o deve a Deus, e à sociedade, e ao seu amigo que atriçoou, à mulher do seu amigo que cobriu de ignomínia, à pupila do seu amigo, que debalde quer lavar nas lágrimas a nódoa eterna. - Mas que testemunhas dá o senhor da verdade das suas acusações? - Três - respondi.
- Quais?! Do processo não consta alguma, nem o senhor aduziu alguma em sua defesa. - As minhas testemunhas depõem em silêncio.
- Isso é absurdo.
- Pois, Sr. Dr. Juiz, creia Vossa Senhoria no absurdo, como Tertuliano: “Quod absurdum, credo.”
- Não tenho que ver com Tertuliano; provas de arguição é do que a lei conhece aqui. Quem são as três testemunhas?
- É um marido que está prostrado de vergonha e de aflição num leito. É a mulher deste marido, que está doida. É uma órfã, recolhida nas Ursulinas de Braga, que está... prostituída. São estas as três testemunhas. Anselmo Sanches pôs os olhos no tecto e exclamou:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.