Por Machado de Assis (1891)
Ia assim, até o fim da lauda, variando a letra, ora grossa, ora miúda, caída para trás, em pé, de todos os feitios. Quando acabava a folha, pegava nela, e comparava as assinaturas; deixava o papel e perdia-se no ar. Daí a jerarquia das noivas. O pior é que todas traziam a cara de Sofia;-podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma vizinha, ou com a moça que ele cumprimentara, à tarde na rua, podiam começar muito magras ou gordas;-mas não tardavam em mudar de figura, encher ou desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bela Sofia, com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. Não havia fugir, ainda casando? Rubião chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sair da casa dele tendo-lhe ouvido a ela uma porção de cousas bonitas e vagas. Grande foi a sensação de ventura, posto que ele repelisse logo a idéia, como um ruim agouro. Dias depois, trocadas as maneiras, tornava ele definitivamente aos seus planos. Mais de uma vez, era o próprio Palha que o acordava daqueles sonhos conjugais.
-Tem onde ir hoje à noite?
-Não.
-Pegue lá uma entrada para o Teatro Lírico, camarote n° 8, primeira ordem à esquerda.
Rubião chegava mais cedo, ia esperar por eles, e dava o braço a Sofia. Se ela estava de bom humor, a noite era das melhores mundo. Se não, era um martírio, para repetir as próprias palavras dele, ao cão, um dia
-Vim ontem de um martírio, meu pobre amigo.
-Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba.
-Sim, meu pobre amigo, acudiu ele pegando-lhe nas patas dianteiras e colocando-as sobre os joelhos. Você tem razão; precisa uma boa amiga que lhe dê cuidados que não posso ou não sei dar. Quincas Borba, você ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo meu, grande amigo, eu também fui amigo dele, dous grandes amigos. Se fosse vivo, seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,- ao menos, o de honra, aos noivos;-e seria por copo de ouro e diamantes, que eu lhe mandaria fazer de propósito... Grande Quincas Borba!
E o espírito de Rubião pairava sobre o abismo.
CAPÍTULO LXXXIII
UM DIA, como houvesse saído mais cedo de casa, e não soubesse onde passar a primeira hora, caminhou para o armazém. Desde uma semana que não ia à Praia do Flamengo, por haver Sofia entrado em um dos seus períodos de sequidão. Achou a Palha de luto; morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a notícia chegara na antevéspera, à tarde.
-A mãe daquela mocinha?
-Justo.
Palha falou da defunta com muitos encarecimentos; depois contou a dor de Maria Benedita; estava que metia pena. Perguntou-lhe por que é que não ia ao Flamengo, logo à noite, para ajudá-los a distraí-la? Rubião prometeu ir.
-Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina que primor ali está. Boa educação, muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se não as teve em criança, ressarciu o tempo perdido com rapidez extraordinária. Sofia é a mestra. E dona de casa? Isso, meu amigo, não sei se em tal idade se achará pessoa tão completa. Já agora fica conosco. Tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito, no Ceará; tem também o padrinho, em S. João d'EI-Rei. A defunta fazia-lhe muitos elogios; não creio que ele a mande buscar, mas ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não há de ser pelo que o padrinho lhe quiser deixar em testamento que nos desfaremos dela. Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do Rubião.
Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escritório, ao fundo, olhou por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazém. Perguntou que traziam.
-São uns morins ingleses.
-Morins ingleses, repetiu Rubião, com indiferença.
-A propósito, sabe que a Casa Morais e Cunha paga a todos os credores, integralmente?
Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se eles eram credores dela; ouviu a notícia respondeu que estimava muito, e dispôs-se a ir embora. Mas o sócio reteve-o ainda alguns instantes. Esta-va alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguém. Voltou a tratar de Maria Benedita. Tinha intenção de casá-la bem; nem ela era moça de dar lérias a pelintras, nem se deixava ir por fantasias tolas; era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa séria.
-Sim, senhor, ia dizendo Rubião.
-Olhe, murmurou de repente o Sócio; não se admire do que lhe vou dizer. Creio que você é que casa com ela.
-Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para atenuar o efeito da recusa. Não nego que seja moça digna e perfeita; mas... por ora... não penso em casar...
-Ninguém lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que se improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas; palpites. Sofia nunca lhe contou este meu palpite?
-Nunca.
-É esquisito, disse-me que lhe falara uma vez, ou duas, não me lembro bem. -Pode ser, sou muito distraído. Que queriam casar-me com a moça?
-Não, que eu tinha um palpite. Mas, deixemos isto. Demos tempo ao tempo.
-Adeus.
-Adeus, vá cedo.
CAPÍTULO LXXXIV
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.