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#ensaio_literari#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

A confeitaria do Carceller passou mais tarde ao Sr. João Gonçalves Guimarães que, dando ao estabelecimento realce muito maior, honra sempre o nome e a memória do bom velho Carceller, chamando-o ainda hoje - "meu amo, que me serviu de pai", porque fora dele caixeiro e por ele tratado como filho.

Grão-mestre do lunch e rei dos banquetes grandiosos da cidade do Rio de Janeiro e de aquém e de além, mar em fora e por terras a dentro, o Guimarães é pelas suas novidades culinárias objeto da veneração dos gastrônomos, que por último lhe deveram a invenção de garopas de ovos de galinha com farinha de trigo e açúcar; mas a sua confeitaria é ainda mais notável como arca de sigilo, onde já se sepultaram mais de vinte histórias de corações em fogo, abrasando-se com acompanhamento de sorvetes.

E houve um dia (no Segundo Reinado... e não quero dizer quando) em que a confeitaria do Guimarães teve horas de comoções de alta política. Na sala da frente do segundo pavimento estacionava distinto estadista, enquanto outro, hoje florescente notabilidade, que então ainda não era senador, saía, e após demora mais ou menos longa voltava ou só ou acompanhado; é claro que para explicação dissimuladora do que se passava e para animação da paciência na sala de cima levavam-se para esta empadinhas, pastéis, croquetes, doces, etc.: finalmente no fim de quatro ou cinco horas o distinto estadista desceu a escada e saiu da confeitaria com um novo ministério organizado, e ministério auspicioso, pois que se organizara com o encanto (quase que disse programa) político das empadas, pastéis, croquetes, doces e pão-de-ló.

A segunda casa célebre deste quarteirão da Rua do Ouvidor é a atual de n.º 40 - Casa da América e da China.

Não me posso ocupar dos seus merecimentos américo-chineses (que aliás são muitos) nem estudar os motivos por que, vencendo de um salto o estreito de Behring, deixou-nos sem os produtos industriais do Japão, e foi com perigoso e muito maior salto firmar pé no império célebre do filho do sol.

Requeiro que o utilíssimo estabelecimento da América e da China se naturalize japonês também e passo a dar notícias do fundamento da celebridade justíssima dessa casa do atual n.º 40.

Não sei em que ano do fim da primeira dezena do século que corre foi morar nessa casa Luís Francisco Saturnino da Veiga; certo é, porém, que de 1807 a 1810 esse homem, português de nascimento, profundamente religioso e de austeros costumes, aí se estabeleceu, abriu excelente escola de instrução primária, e nessa escola deu o ensino de primeiras letras e de noções da religião católica, creio que a todos os seus filhos e com certeza a Evaristo Ferreira da Veiga, um deles.

A casa da segunda infância e do berço literário de Evaristo deve ser patriótica e honorificamente respeitada, como o foi a casa de Píndaro.

Nos tempos em que vivemos, artificiando admirações em tributos de encomenda a aves rasteiras que no campo da política fazem pequenos giros de moita em moita, exaltemo-nos honrando a memória da casa que foi ninho da águia altaneira que em arroubos de patriotismo pôde e soube ir face a face beber de Phebo as luzes.

Para que algum severo crítico não ache de mau gosto, supondo minhas as imagens que sublinhei, declaro que elas são de Felinto Elísio, e portanto de ouro de lei.

Evaristo Ferreira da Veiga, que não foi doutor, estudou Latim, Francês, Filosofia e Retórica e creio que também um pouco de Inglês no Seminário de S. José, e não tendo mais que aprender aí, pois que não fora destinado ao sacerdócio, o pai que, aborrecido do magistério de instrução primária, abrira loja de livros na Rua da Alfândega, o fez seu caixeiro ou ajudante na loja.

Evaristo formou-se, doutorou-se por si na universidade da livraria do pai. Aprendeu sem mestre a língua italiana, História e Geografia, Ciências Sociais, Economia Política, e só não aprendeu a sabedoria do bom-senso, porque já nascera com ela.

Alguns anos depois abriu loja de livros própria, à Rua da Quitanda, quina da Rua dos Pescadores (atual do Visconde de lnhaúma). Em 1828 fez-se redator da Aurora Fluminense (e sem pedir licença a chefe político algum!!!).

Com a Aurora Fluminense criou o partido liberal-monarquista no Brasil.

De 1830 a 1837 (em que morreu com 38 anos de idade) foi deputado da Assembléia Geral Legislativa (e sem dependência nem bênção de chefe, de tio ou de padrinho político algum!!!).

O livreiro pobre, logo em 1830, foi influente liberal na Câmara.

(continua...)

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