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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Quando ouviram o sinal
as outras duas naus ambas,
foram chorar suas lambas,
dando fundo cada qual:
certo não fizeram mal
em não querer provocá-la
porque assim Ihes escala
o nariz a artilharia
com pólvora, que seria
se lhe atirasse com bala?

Alguns, creio, admiraram
da pólvora a fortaleza,
por rebentar nesta empresa
pela culatra o canhão
mas a minha admiração
está, no que o povo diz
por áí, que essa infeliz,
e traidora artilharia
fazendo aos pés pontaria,
fez o emprego no nariz.

Mas que muito que assim seja,
se este canhão português
faz andar tudo ao revés,
quando sem pejo despeja:
já se sabe ser a igreja
asilo a todo o culpado;
mas quando foi disparado
o canhão aos combatentes,
nem ainda aos inocentes
narizes valeu sagrado.

Mas se perguntasse alguém
com desdém, e desafogo
como a peça tomou fogo,
sendo, que ouvido não tem:
eu respondendo mui bem
dissera que por estar
a peça tão par a par
do crisol generativo
se comunicou ativo
o fogo no abalroar.

Mas não o quero dizer,
porque não mande, que o prove
algum, que isto me reprove,
querendo-o melhor saber:
e assim já boto a correr
seguindo a ruína da nau,
que aberta vai pelo vau,
e vou procurar-lhe estopa
por calefetar-lhe a popa,
antes que saia o mingau.

Logo pois que o seu canhão
deu fogo, o baixel violento,
largando velas ao vento
foi pedir absolvição:
porém eu digo, que não
pecou ela desta vez,
pois com soltar de cortês
o preso, que se valeu
do Sagrado, mereceu
a festa que se Ihe fez.

As Fragatas da companha
botando as barbas de molho,
porque esta Ihe dera de olho,
Ihe fizeram festa estranha:
deram-lhe trela tamanha,
que cuido, porque o não vi,
que a pobre partiu dali
tão corrida, e envergonhada,
que foi de voga arrancada
a dar fundo em Parati.

E se passou mais avante,
já pôde chegar à Europa,
porque foi com vento em popa,
e escoou-se co'a vazante:
mas se algum bom estudante
na arte da disentéria
por desgraça, ou por miséria
reprovou desta poesia
a forma, por cortesia
prove ao menos a matéria.

A HUMA MOÇA QUE PERDEO DOUS CASAMENTOS AJUSTADOS, O PRIMEYRO
COM HUM FLAMENGO, QUE SE DESCULPOU AO DEPOIS QUE TINHA FEYTO
VOTO DE CASTIDADE, E O SEGUNDO COM HUM SOLDADO, QUE SE
EMBEBEDAVA, E FUGIO DEPOIS DE A ROUBAR.

Senhora Donzela: à míngua
de um casamento jucundo
cousas sucedem no mundo,
que me puxam pela língua:
o que se conta, vos míngua
na fortuna do himeneu,
pois a sorte vos perdeu
dous, que o céu vos deparou,
um, que inda nada provou,
e outro que tudo bebeu.

O vosso Noivo Flamengo
não sintais vê-lo fugir,
que não é para sentir
a fugida de um podengo:
eu com riso me derrengo,
vendo, que de mui previsto,
vos dissesse um Anticristo,
que castidade jurou,
quando eu sei, que não votou,
salvo foi um "voto a Cristo".

O que ele prometeria,
não seria castidade,
mas não falar-vos verdade,
e usar de velhacaria:
grande peça, vos faria,
se vos tivera a mão dado,
que um homem mal encarado,
e de pouco cabedal
mentir-vos antes mais val,
do que depois de casado.

Dai vós ao demo o brichote,
que com coração traidor,
qual boticário de amor
vo-la pregou com serrote:
e vamos ao matalote
do segundo matrimônio,
a quem o mesmo demônio
tão destro vo-lo mandou,
que o matrimônio deixou,
e levou o patrimônio.

Levou com destreza, e manha
de calçar, e de vestir,
porque nisto do mentir
ninguém descalço o apanha:
ser ladrão já não se estranha
nesta idade um soldadinho;
mas vós tendes este gostinho,
(quando a paixão vos corcoma)
e é, que ele o vestido toma,
mas a ele o toma o vinho.

Se por bêbado livrou,
valha-lhe o mesmo direito,
porque ao mais atroz efeito
todo o bêbado escapou:
o Céu vos apadrinhou
em vos livrar de um pirata
e se conforme a vulgata,
porque o inimigo se vá,
ponte de prata se dá,
vós destes ponta de prata.

A HUMA MULHER QUE SE BORROU, ESTANDO NA IGREJA EM QUINTA FEIRA DE
ENDOENÇAS.

Diz, que a mulher da buzeira
na Cachoeira nasceu,
e assim quando a dor Ihe deu,
vazou como cachoeira:
mas a gente, a quem mal cheira
a cebolinha cecém,
disse, que era de Siquém,
e outra ali se confrangia
ou judia ou não judia
não me cheira a mulher bem.

Como havia de cheirar
a fêmea em pressa tão alta,
se a cachoeira Ihe falta,
para haver de se lavar;
mas logo mandou levar
por uma negra Xarifa
a alcatifa tão patifa,
que eu ouvi pelos carrilhos,
que a mulher cagou cadilhos,
que lá iam na alcatifa.

(continua...)

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