Por Eça de Queirós (1940)
Onde estão os tempos saudosos, em que cada telegrama nos trazia uma vitória turca? Onde estão esses dias em que os correspondentes nos pintavam as cargas irresistíveis da infantaria otomana, atroando os céus com o grito de «Alá! Alá!» e pulverizando divisões russas? Onde estão os Vitoriosos e os ghazis? Onde estão as lágrimas do imperador da Rússia choradas nas noites da derrota? Onde estão as horas alegres em que um coração liberal se regozijava, pensando que o czar e o seu Governo autoritário, despótico, teocrático, semibárbaro, humilhado pelas derrotas na Bulgária, seria na Rússia feito em pedaços por uma revolução niilista? Ai, tudo nos passou! Hoje o que se nos diz cada dia é que mais uma fortaleza turca foi tomada, mais um regimento aprisionado, mais um passe dos Balcãs atravessado, mais uma enxada cavada na sepultura da Turquia. O czar não só não é destronado, mas é recebido em Sampetersburgo com um fanatismo tão alucinado que pessoas deixam-se atropelar para se poderem prostrar, beijar-lhes as botas, tocar com a ponta dos dedos na bainha da sua espada santa! E são os ministros do sultão que dizem ao novo parlamento em Constantinopla: «Estamos perdidos, rendamo-nos!»
É doloroso ver que esta guerra injusta tem como resultado fortificar, enfatuar, perpetuar um governo inimigo de toda a liberdade, defensor de todo o despotismo, cuja justiça se chama Sibéria, cuja administração se chama Polónia, que tempera a liberdade dos jornais pelo assassinato dos jornalistas, que liberta os servos para melhor os poder explorar pelos impostos, que condena um romancista ou um poeta a prisão perpétua se o seu poema ou a sua novela desagradam à polícia, que expulsa o estrangeiro suspeito de liberalismo como se enxota um cão, que tem como sistema de governo a delação e a espionagem, que chicoteia as mulheres cujos maridos não convêm, que exila os maridos cujas mulheres convêm e que civiliza as raças de civilização inferior – destruindo-as. Eu não tenho certamente nenhuma simpatia pelo sultão: uma tão rica porção de território europeu, como a Turquia, nas mãos de uma raça preguiçosa e asiaticamente passiva é certamente uma perda para a civilização, é uma esterilização de força produtiva; mas se o golpe ao Urso Branco, ao campeão da tirania, pudesse vir da Turquia, hurra pela Turquia!, hurra pelo china ou pelo mongol!, hurra por qualquer povo negro ou nu que pudesse libertar a Rússia, a Europa, a liberdade e o pensamento desta tenebrosa entidade, o Governo do czar!
Infelizmente não nos é dada essa doce consolação. E, todavia, é neste momento ou nunca que a Rússia corre um perigo. O armistício com a Turquia está assinado, parece. O czar deve agora apresentar, necessariamente, as suas condições de paz e revelar a extensão das pretensões: se elas forem tais que prejudiquem os interesses britânicos, o Governo de Lord Beaconsfield está ligado, pelas suas declarações e pela sua honra, a fazer a guerra. E este o momento crítico. A Inglaterra há meses que diz: «Esperemos, até ver o que a Rússia quer.» A Rússia tem nestas semanas últimas de dizer o que quer. E a Inglaterra de dizer o que faz.
É evidente que uma coisa é o Governo de Inglaterra e outra coisa é a Inglaterra: que a rainha e Lord Beaconsfield desejam a guerra, pelas suas inclinações pessoais, é certo; mas estes bons desejos dos elementos decorativos da constituição não bastam; é necessário que a grande massa, o contribuinte, o eleitor se queiram bater – e é neste elemento dominante que eu vejo uma antipatia muito decidida por qualquer acção militar. O Partido Conservador, em Inglaterra, vive num estado de irritabilidade acerca de política estrangeira; é, de natureza, bélico e fanfarrão: conserva o antigo ideal da canção: «Britânia governando as ondas e árbitra das nações.» Que em qualquer ponto da Europa haja um tiro, e os conservadores ingleses querem logo mandar lá a frota, a vasta frota! Foram eles que fizeram a Guerra da Crimeia: foram eles que gritaram que a Inglaterra devia intervir, pelo Sul, na guerra da América. Fora eles que declararam que a nação estava para sempre desonrada por não ter tirado a espada em favor da França. Se a nação os tivesse escutado, tê-la-iam lançado nas aventuras mais desastrosas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.