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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Descreu da amizade, do Cenaculo, da Democracia. N'essa noite, na Corcovada, com o Rabecaz, foi excessivo : declamou contra os ricos, o governo, os poetas publicados, e, como todo o plebeu obscuro e litterario, tornando a Monarchia, a sociedade Officiai, culpadas da sua obscuridade e da sua litteratura inedita, desejou uma Revclugão sanguinaria . . . Mas a Democracia, tal como a concebia Damião, tão seccamente positiva, occupada de Direito, ignorando o sentimento, hostil aos poetas, parecia-lhe odiosa.

— Não ha nada — exclamava com desalento.

Todo o esforço é inutil n'cste desgraçado paiz !

O Rabecaz oscillava a cabeça, com os braços soturnamente cruzados : o Governo Civil do Porto, por esses dias, recusara-lhe uma gratificação, e o Rabecaz tambem atravessava um periodo especial de rancor á sociedade.

— Uma choldra, — rosnou — uma choldra !

Arthur deu um repellão ao copo de genebra.

Alli estava, por falta de dinheiro, d'amizades sociaes, encarcerado no anonymato ; e as cousas for tes sobre que desejaria apoiar-se na vida, e d'onde quereria tirar a sua propria força, tornavam-se-lhe agora inaccessiveis.

— Dá-me vontade de queimar tudo o que tenho escripto

O Rabecaz estendeu com auctoridade a mão cabelluda :

— Escute ! — disse.

E arrancando, uma a uma, as palavras do peito azedado :

— Escute Isto ama choldra ! Mas eu ainda tenho amigos Lisboa ! . Apesar de te deixado Lisboa ha doze annos, caramba, ainda se lá sabe quem eu sou ! . , vou escrever ao Melchior, 0 Melchior da Opinião. O Melchior é catita t

Arthur, pallido, vendia-lhe dos labios espessos, d'onde lhe parecia vêr correr um mel consolador.

O Melchior, hein

O Melchior ! gajo ! O Melchior arranja um theatro !

Ó Rabecaz, você salva-me !

O Rabecaz atirou d'um golpe para as tauces 0 calice de genebra, deu um ronco, e disse com segurança :

— Ainda se tem influencia na rapaziada ! . . . Ainda se 6 gajo !

E alli mesmo collaboraram n'uma carta ao Melchior da Opinião, em que, aos lyrismos dictados por Arthur, se misturava, como bicho entre flores, o calño do Rabecaz, Um fim de periodo dima : este pois o esplendido drama d'urna alma de poeta, em que fervem as aspirações sociaes mais nobres d'este seculo de Democracia e o Rabecaz seguia . . . e agora não se me faça você gajo, e bata essa Baixa para arranjar um theatrote que leve a cousa e largue a cheta »

Arthur então sentiu a esperança voltar-lhe mais viva. Releu os Amores de Poeta, e com o seu antigo respeito pelo Damião, apesar de o odiar agora, esbateu o que havia no papel d'Alvaro d'excessivamente lyrico, introduziu duas scenas de comedia para quebrar a uniformidade lugubre, e recomeçou os seus sonhos, Mas as semanas passaram e não veio resposta do Melchior da Opinião.

É que escreve n'outro jornal, — dizia o Rabecaz — não lhe chegou a cartQ á mão. O Melchior é catita !

Escreveu então a um sobrinho, o snr. Venancio Guedes, empregado no Ministerio do Reino, pedindo-lhe informações sobre Melchior Cordeiro « que eu preciso cá para umas cousas theatraes ». Dizia •lhe ainda que averiguasse se em D. Maria poderiam levar uma bella peça chamada Amores de Poeta, obra rica por que ou me responsabiliso ,

D'ahi a dias, na Corcovada, Rabecaz, furioso, mostrava a Arthur a resposta do sobrinho, escri pta em papel official: «Não sei onde mora esse Melchior», dizia o sm. Venancio Guedes, « ignoro quem seja, e não frequento litteratos. Emquanto a theat1'03 e emprezarios, as minhas occupações não me permittem que malbarate o tempo n'essas pesquizas . . . » — Que malcreado ! — rugiu o Rabecaz, — Um traste a quem eu empreguei! Fui eu que o emp reguei, áquella besta! É onde se encontram as peo tes viboras, é no nosso proprio sangue

—É a minha sorte — declarou sombriamel ite Arthur.

Atirou os manuscriptos com rancor para o fundo do bahú e recahiu n'uma vida inerte. Agra que da Litteratura não podia tirar a celebridade ou uma posição em Lisboa, abandonava os livr«

Pouco a pouco o seu espirito, como uma ag 1a isolada e presa n'uma baixa, que se vai enlodando, morrendo, foi perdendo a transparencia viva que reflectia os azues e as nuvens, e Arthur, com uma lassidão quasi satisfeita, lia agora na pharmacia o Almanach de Lembrançag. Por vezes uma mulher entrava, estendia a receita, e sentava-se esperando ; algum labrego, de voz entaramelada, vinha pedir um unguento para uma ferida; Arthur erguia-se, aviava-os melancolicamente; e quando, n'um trote cangado, com os tirantes lassos, passava na rua o char-à-bancg da carreira, todos se voltavam n'uma pasmaceira triste.



(continua...)

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