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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

O Sr. Doutor sabia que a Sra. D. Marianazinha era rica, e disse à Sra. D. Rita que o melhor modo de continuarem a viver de perto sem que o mundo botasse fel era ele fazer com que o marido consentisse no casamento dela com a menina. Depois, a minha ama deu-lhe um desmaio, e esteve às portas da morte. Quando melhorou, abraçou-se à menina e perguntou-lhe se o doutor já lhe tinha dito alguma palavra a respeito de casar com ela. A menina pegou a chorar e não disse uma nem duas. Isto mais apoquentava a minha ama, e desesperava-se que metia medo. Tanto fez que a menina confessou que o doutor a perseguira quatro meses todas as vezes que a senhora não estivesse ao pé, e que, vindo uma vez com ela de Guimarães, onde a menina tinha ido visitar umas parentas...

A criada, neste ponto, levou o avental ao rosto para encobrir que não corava; e no entanto, Margarida, relanceando os olhos dela para mim, e de mim para ela, com um brilho de alegria só compreensível às mulheres despenhadas, que folgam a cada vítima abismada com elas, disse com império:

- Acabe a história, Josefa.

- A história está acabada, Sra. D. Margarida - disse eu.

Faltam os comentários, que tanta gente faz por sua conta. Esta D. Rita, Sr. Silvestre, quando me estendia a mão e os lábios numa sala, fazia-o com um ar de soberania que me incomodava. Ouviu-lhe muitas vezes, falando de Cecília, dizer com virtuosas caretas: “Vergonha das mulheres!” Rejeitou convites para casa de certas senhoras que não aspiravam a santas. A mim me disse com pedantesco ar maternal: “Menina, as exterioridades, por muito francas e inocentes que sejam, bastam para condenar. Coíba-se de todas as acções que possam dar pasto à maledicência. Olhe que a honestidade não está somente no coração: um olhar e uma palavra irreflectida bastam a depor contra as mais sisudas intenções.” E continuou com rancorosa satisfação:

- De Mariana só lhe direi que ainda há quinze dias a vi com seu ar virginal voltar-se à brasileira, que estava ao pé de mim na missa dos Clérigos, e murmurar a meu respeito palavras que eu não pude compreender. Esta criada, que estava ao pé delas, ouviu-as: “Aquela Margarida Carvalhosa tem modos tão desenvoltos e impróprios de menina solteira!” Ora isto dito por quem oito dias antes, vindo de Guimarães, aceitara uma catástrofe tão imprópria de menina solteira, não me parece crítica muito frisante aos meus costumes. (Eu ri-me por dentro, quando ela disse “meus costumes”...)

Enquanto ao Dr. Anselmo Sanches - continuou D. Margarida, cortando as palavras com frouxos de riso -, esse deixo eu à perspicácia do Sr. Silvestre avaliá-lo... Retire-se, Josefa, que vem aí a mamã.

VII A polícia correccional

Escrevi um artigo contra Anselmo Sanches, cuidando que assim vingava o género humano. Saiu o artigo na secção dos comunicados: o proprietário do jornal declinou a responsabilidade moral e legal da ofensa ao doutor. Rompeu-me assim das entranhas o ódio que as queimava:

Sr. Redactor:

Há casos em que o silêncio é um crime! À vista de infâmias que sobreexcedem e transbordam a paciência humana, não há aí peito de ferro que se contenha!

...............Nam quis iniquae

Tam patiens urbis, tam ferreus, ut teneat se...?

Aqui é o caso de dizer como o cantor de Camões: Ergo-me a delatar tamanho crime E eterna a voz me gelará nos lábios.

Vinde a mim, hipócritas!

Vinde ao sevo do escândalo, celerados que andais nas encruzilhadas assalteando a honra dos infelizes descautelosos!

Aqui tendes charco para vos rebalsardes, cerbos!

Aqui está um dos vossos, que apunhalou a alma dum marido, crucificou uma esposa ao madeiro de eterno opróbrio e sovou aos pés uma coroa virginal.

Isto era o exórdio, que os meus inimigos chamaram farfalhada. Seguia-se depois a exposição chã da protérvia de Anselmo Sanches, arranjada em três capítulos, cada um com uma epígrafe. A primeira era: Quousque tandem, Catilina?... Achou toda a gente literata muita novidade nesta passagem de Cícero a propósito de

Anselmo. A segunda epígrafe era Proh pudor, proh dolor! - também nova. O terceiro capítulo rompia com o Me, me adsum qui feci, in me convertite ferrum. O todo era broslado de passagens latinas, que tornavam o meu artigo um parto de indignação e outro parto de sapiência.

Guardava eu as justas conveniências em embuçar os nomes das duas mulheres, que figuravam no quadro infesto à dignidade humana; mas abstive-me de cerimónias com o doutor.

O meu artigo levantou contra mim celeuma de pessoas honestas, e até jornais honestos me saíram de revés, acoimando-me de indiscreto, licencioso e causa ocasional de escândalo. É boa tolice esta! Uma gazeta sisuda, maravilhando-se de que eu fizesse queixumes, não sendo sequer marido da dama, aplicou-me os sabidos versos de Nicolau Tolentino:

Apóstolo impertinente Pra que hás-de tu suar,

Se não sua o padecente?

(continua...)

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