Por Camilo Castelo Branco (1864)
Teodora estaria no seu gabinete de estudo, e as vidraças coariam a luz da sua lâmpada, companheira das lucubrações intelectuais, insuspeitas ao marido. Referendado o programa e rubricado com um ósculo (repara que me não descomponho) ouvi estropeada de cavalo na rua. Momentos depois...
- Querem ver que chega Eleutério! - atalhei com alvoroço e alegria párvoa, se não cruel.
- Eleutério Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que subiam para a sala, onde nós estávamos tranquilos como Paulo e Virgínia (perdoai-me, santas almas, a comparação!) nos rochedos da Ilha de França! Agora tu, Calíope, ensina-me a contar o sucesso estranho!... Eleutério viu ainda o desencadearam-se os braços de Teodora do meu pescoço. Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.
- E Teodora? Narra-me da esposa surpreendida; que fez ela? - perguntei com inquieto empenho.
- Teodora, pendidos os braços, fitou Eleutério com sobranceria, deu dois passos, postou-se diante de mim e disse, voltada para o marido: "Que me quer? A minha alma é livre."
- Esperava outra coisa eu! Isto parece-me estupidamente imoral. É caso novo é feio esse! E tu, que fizeste tu?
- Nada.
- Dos três é quem andaste melhor. Parabéns! E ele, o marido, que fez depois? Que respondeu à Pantasileia?
- Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente podoa de dois gumes do bolso interior da judia.
- Uma podoa! Outra novidade! E arremeteu com ela?
- Quando ele sacou do ferro, passei para a frente de Teodora.
- Desarmado?
- Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Pantasileia virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repeliu-me com uni braço e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do marido.
- Novidade terceira! - acudi eu, quase suspeitoso da logração do conto. - Tu não estás inventando, Afonso?
- É inepta a pergunta; mas perdoável. Não invento, meu amigo. Conto verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do marido dela punge-me deveras. Tremia-lhe o ferro na mão ameaçadora, e já o rosto se lhe estava banhando em lágrimas. Desceu o braço quebrantado por agonia mais lacerante que a ira e fitou em mim os olhos chamejantes. De mim, relanceou-os à mulher; e, desafogando a custo as palavras, disse: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"
- Não esperava eu que ele dissesse isso. Há concisão e angústia suprema nesse apelar a Deus - reflecti eu condoído, não obstante tê-lo visto, como fica escrito, no arraial de S. Brás de Landim, anos antes, em jeito de muita felicidade, e grande frescura de Animo e coração. E continuei no meu impertinente interrogatório, tendo em vista que o leitor fosse bem informado: - Eleutério, depois, saiu, ou que fez?
- Chorou, embebeu as lágrimas no lenço, e disse: "Eu não te obriguei a ser minha mulher. Se casaste, foi porque quiseste. Se tinhas outra inclinação, não dissesses a meu pai que me querias."
- Que impressão fizeram em ti essas palavras tão simples e sinceras? - perguntei..
- Má impressão! - respondeu Afonso de Teive. - Péssima impressão! Desviei involuntariamente os olhos dela: a razão saiu por momentos do seu chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleutério, por último, rematou assim: "Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua." E saiu. Teodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: "Estou livre. Aqui me tens, Afonso. Aqui está a tua Palmira, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instintos maus, graças aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queresme assim, Afonso?..."
- Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente - interrompi eu.
- Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto: "quero-te assim; partiremos hoje mesmo para Lisboa." "E os meus fatos, as minhas jóias?", perguntou ela. "Tenho brilhantes que eram de minha mãe." "Deixa-os. Terás brilhantes, se eles forem precisos à tua felicidade!" "A minha felicidade!", exclamou Teodora, ajoelhando-se-me de mãos postas, "a minha felicidade é uma choça contigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade." Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste daquela humildade com a arrogância da resistência ao marido.
"A esta procela de comoções violentas seguiu-se um intervalo de silêncio morno, concentração porventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe e a puríssima imagem de minha prima. Teodora não sei o que via: pode ser que estivesse lendo a página negra do seu destino, voltada pela mão do Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embelezados; o ambiente escaldante que ela aquecia com o seu hálito coava-me lume até às medulas dos ossos; mas o formidável grito da moral repercutia-se no senso. intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi já lavrada.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.