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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

– Se você continuasse no partido, podia subir ou nós arranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de vencimentos; mas...

– Continuo no partido, doutor...

– Como? Você não vota conosco...

– Mas não voto no outro.

– É o mesmo.

– Não é doutor.

—É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso não é?

– É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

– Que foi que deu em você?

– Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

– Ouço, mas você não demora muito.

– Não demoro não senhor.

– Conte lá a história.

– Vou contar. Trata-se – não é verdade? – de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

– Daí?

– Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até – preciso cuidado. Não é doutor?

– Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

– Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

– Vamos adiante.

– Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é – não acha?

– Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

– Conheço. É um homem muito inteligente...

– A maior glória do Brasil.

– É um grande talento.

– É um gênio.

– Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

– Porque?

– Pode ser caprichoso, implicante ...

– Ora!

– Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

– Não é bem isso...

– Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

– Não digo que ele seja...

– E o Epitácio?

– Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

– Mas não é o Rui.

– Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

– Mas porque você não vota nele?

– Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

– Você não pensava assim – não é?

– É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

– Faz mal. O partido...

– Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

– Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

– Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

– Quem é?

– É o doutor.

– Eu?

– Sim, é o senhor.

– Mas, eu mesmo? Ora...

– É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

– De forma que você...

– Voto no senhor, para presidente da república.

– É voto perdido...

– Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. “Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la”...

– Chega Felício.

– Não é isso?

– É mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

– Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

– Você está com teorias estranhas, subversivas...

– Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

– Mas... já sou deputado.

– Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

– Não preciso, já ganho na clínica muito.

– Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

– Para nada.

– Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

O Malho, Rio, 1-4-1919.

QUEREIS ENCONTRAR MARIDO? – APRENDEI!...

A Livraria Schetino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: Quereis encontrar Marido? – Aprendei!...

(continua...)

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