Por Coelho Neto (1890)
Antes de tomarem rumo foram ao café e Anselmo, para fazer lastro, engoliu três empadas e um copo de leite e, reconfortados, como na véspera havia caído do céu uma nota de vinte mil réis, foram os três repousadamente, a bonde, descendo na rua Santo Amaro. Quando chegaram, já as andorinhas despejavam os trastes com grande pasmo dos vizinhos que viam tanta velharia e tão desencontrados móveis entrando para aquele prédio nobre e de tão alto preço, de onde havia saído a família de um fidalgo, seguida de uma dezena de andorinhas que, ainda assim, foram poucas para levar os finos erables, os magníficos jacarandás, o precioso carvalho florejado, as raras perobas tigre, o pau rosa, o ébano, um retumbante Erard e cristais, bronzes, mármores, estofos, tapeçarias e a baixela e a faiança e os quadros, porque, depois de haverem desfilado lenta e longamente os transportes, que rangiam atestados, homens ainda desceram carregados e até a primeira hora da noite, tendo a mudança começado com os brilhos suaves da manhã, como de uma cidade que a peste ou a guerra houvesse ameaçado, foi um constante transitar de gente: negros com chocalhos e brancos e mulatos, homens de várias terras, falando várias línguas, arquejando, curvados sob pesos inauditos, ladeira abaixo, em passo rítmico e seguro.
Quando o tapete, que representava a voluptuosa cena do serralho, foi estendido no vastíssimo salão do pavimento superior, usa dos homens das andorinhas apresentou a Ruy Vaz o recibo. O romancista guardou-o, o homem, porém, não se moveu coçando a cabeça empastada, com os olhos muito abertos, um cigarro mole ao canto da boca.
— Que é? Está entregue, pode ir.
— É que... é que ainda não está pago o serviço, murmurou com um sorriso parvo.
— Como! Não está pago?
— Não, senhor.
— Pois volte com o recibo, porque a pessoa que tratou lá deve ir pagar.
— Não dá alguma coisa para matar o bicho? — murmurou o homem em tom pedinte.
— Não, respondeu Ruy Vaz sisudamente — sou da sociedade protetora dos animais.
O carroceiro lançou um olhar rancoroso ao romancista, tomou o papelucho, meteu-o no bolso profundo e, dando volta nos calcanhares, rosnou: "Às ordens..." e desceu. Ruy Vaz mandou João de Deus trancar as portas e começou a arranjar a casa.
Toda a mobília não dava para encher um dos quartos e a casa imensa ficava desoladamente vazia, apesar de haverem os rapazes espalhado, com sabedoria, as cadeiras e as estantes.
— Não se sacia este monstro! — rosnou Ruy Vaz desesperado. Estão aqui os móveis de três homens e nem parece. E um abismo!
O tapete no salão era como uma pequenina ilha na imensidade do oceano. João de Deus tomou conta de um dos quartos do primeiro pavimento, pousou a rodilha no chão liso e, como estava esfalfado, estirou-se e dormiu. Os rapazes desceram e como queriam provar todas as delicias da casa, foi Anselmo para a barra fixa, Toledo pendurou-se no trapézio, enquanto Ruy Vaz estudava o estilo das pinturas da sala de jantar.
Já a tarde roxa caía quando, sem esperança de que aparecessem os preciosos móveis de Crebillon e a louça e o trem da cozinha, resolveram mandar à venda buscar ovos e pão para que João de Deus arranjasse uma omelete rápida, mas o negro lembrou ponderosamente que não havia frigideiras nem pratos, propondo umas sardinhas de Nantes.
As razões do negro foram julgadas procedentes: optaram pelas sardinhas e, quando as latas apareceram abertas, cada lata acompanhada de um pão louro e trepidante, houve alegria no grupo. E porque não chegara a mesa de imbuía, a grande mesa dos futuros banquetes, foi sobre o fogão monstruoso e de pé, como os israelitas comiam o cordeiro da Páscoa, molhando o pão no azeite, que os quatro devoraram silenciosamente, enquanto uma cigarra cantava na araucária e as magnólias abriam-se com suave aroma.
Quatro longos, ansiosos dias passaram sem notícia de Crebillon. Aflitos, os rapazes dispersavam-se todas as manhãs indo aos pontos que o abolicionista costumava freqüentar mas ninguém informava; o próprio charuteiro nada adiantou sobre o mistério. E a casa, imensa e nua, à noite iluminada profusamente, parecia um palácio maldito, despovoado e silente onde, a horas altas, com tinidos de ferros e uivos, espectros vinham purgar crimes sobre tesouros escondidos nas muralhas grossas ou sob o soalho forte.
Mas João de Deus encarregou-se de afugentar os duendes, não com hissopes e rezas, mas com um gato, magro e gafento, que entrou num saco, miando, e foi despejado no salão, desaparecendo em seguida. Mas como não cessava de miar ora debaixo fogão, ora no banheiro, ora no corredor, calaram-se os rumores e o assombramento desapareceu.
Uma tarde, já cintilavam estrelas, os rapazes digeriam no jardim uma gorda feijoada que haviam saboreado no hotel do G. Lobo, à rua do General Câmara, casa de modesta aparência e módica, onde um homem podia empanturrar-se com quinhentos e oitenta, sobremesa inclusive, quando João de Deus, sobressaltado, anunciou a mudança de Crebillon.
Posto que achassem a hora imprópria para a entrada de tão preciosos móveis, abalaram à pressa chegando ao corredor justamente quando o abolicionista, com o seu vozeirão atroante, recomendava a um homenzinho "que tivesse cuidado com os trastes", encarregando João de Deus de ir ao pavimento superior mostrar o quarto ascético que se reservara. Dando com os rapazes respirou esbaforido, limpando o suor da fronte.
— Ó homem, onde te meteste? — perguntou Ruy Vaz.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.