Por Bernardo Guimarães (1883)
Entre os moços que frequentavão a casa do major, havia um, que sinceramente apaixonado da belleza de Adelaide se fez notar por seus obsequios e homenagem e por sua assiduidade. Era um terceiro-annista de bella e agradavel presença, de maneiras sympathicas, e posto que não fossc rico, tinha a fortuna dc assignar-se com o appelido de Bueno de Moracs, um dos nomes heraldicos de mais distincção na provincia de S. Paulo. Alem disso, sendo aspirante ao pergaminho de bacharel cm direito, tinha aberta diante de si a carreira das honras e grandezas, c o bom major podia bem nutrir a esperança de ter um dia um genro deputado, presidente, ministro, senador e por fim até mesmo visconde e marquez.
Damazio, que tambem assignava-se Bueno, descobrio logo entre elle e o futuro genro corto gráo dc parentesco, e o doce nome de primo e prima substituirão dahi em diante os nomes proprios entre os dous namorados. Adelaide não se desagradou do moço, a qual na verdade, além dc sua bonita figura e maneiras agradaveis, e insinuantes parecia ser dotado de boas e solidas qualidades. É verdade que não concebeo por elle uma dessas paixões profundas e vehementes, como a que Conrado lhe havia inspirado, mas votava-lhe essa estima calma, porém terna e affectuosa, que é a meu lhor garantia da paz e felicidade da vida conjugal.
Havendo pois commum accordo entre todas as partes interessadas, contractou-se e cclebousc dentro de poucos dias o casamento da senhora Dona Adelaide Florisbclla Bueno dc Aguiar com o senhor Francisco Ribeiro Bueno de Moraes.
É quasi escusado dizer que houve banqueto profuso e baile esplendido, aos quaes forào convidados o compadre Tobias, o presidente da provincia, os lentes da Academia, as familias mais gradas da cidade, e a nata da classe academica.
Bueno de Moraes era de intelligencia um pouco menos que mcdiocre tanto assim, que apezar de contar já os seus vinte e sete annos, apenas á custa de muito patronato e de muito alisar os bancos da Academia tinha podido içar—se até o terceiro anno. Si já era por natureza algum tanto avesso ás lettras, a vida matrimonial, e a tal ou qual opulencia, que entrou a fruir, acabárão de lhe tirar completamente o gosto pelo estudo. Perdeo o anno, e não poude fazer acto. Declarou a seu sogro que não podia mais continuar no curso academico ; que já possuia instrucção bastante para seguir a carreira que melhor lhe conviesse, e, conhecendo o fraco de seu sogro, apontou— lhe diversos exemplos de homens que sem possuirem pergaminho algum tinhão attingido ás mais altas posições sociacs. O sogro, posto que bastante contrariado, não desesperava, c perguntou-lhe em que desejava empregar se Moraes respondeo-lhe que precisava adquirir por seus proprios esforços alguma fortuna, que é a primeira base de uma boa posição social, e que sentia-se com decidida vocação para a carreira commercial, para a qual desde o berço propendião todas as suas inclinações. O major, accedento a seus desejos, aconselhou-lhe que começasse pelo negocio de muladeiro que no seu entender era o que mais depressa podia enriquecer, e para prova dava o seu proprio exemplo. Moraes acceitou o conselho, e aproveitou-se da bolsa e dos largos abonos que o sogro lhe facilitava; mas como homem, que tinha ainda menos pratica de negocios do que dos livros, em menos de dous annos deo litteralmente com todos os burros n'agua, e o sogro teve de sangrar sua burra em quantia consideravel a fim de desempenhar o genro para com seus freguezes de Sorocaba e Curitiba.
Entretanto o luxo e a opulencia continuavão a reinar na mesma escala no seio daquella familia com aprazimento do major e muito éspecial agrado de Moraes, cuja occupação dahi em diante cifrava-se em frequentar bailes e theatros, em alguns passeios com a familia, ou em brodios de estudantes, a cuja classe ainda se julgava filiado, e cujos habitos não tinha de todo perdido. Assim se passava o tempo, e entretanto a fortuna do major, que elle havia accumulado á custa de peniveis trabalhos durante uma longa vida de actividade e economia, lá se ia escoando de um modo rapido e assustador. Já alquebrado pelos annos o major não podia mais entregar-se á vida laboriosa e fragueira de outrora; sentia no entanto a necessidade sinão de augmentar, ao menos conservar e manter no mesmo estado per meio de alguma especulação vantajosa um patrimonio, de que dependia o futuro de sua descendencia e que seu genro, longe de fazer prosperar, só sabia dilapidar. Portanto para por um paradeiro ao desmantelamento de sua fortuna, lembrou-se de abrir no pavimento terreo da casa nobre, em que agora o encontramos com toda a familia, um vasto armazem de seccos e molhados, em que por cautéla figurava como socio de seu genro, em cuja gerencia não confiava muito.
Alli, à testa de seu estabelecimento, o velho major, que para o commercio tinha bastante tino e aptidão, podia tudo superintender, e vedar que o genro compromettesse por suas imprudencias os interesses da casa. Graças a esse expediente o major poude se abrigar de uma ruina inevitavel, e Moraes achou uma occupação digna e honesta, com a qual podia manter decentemente e mesmo assegurar o futuro da familia sem metter a mão no patrimonio do velho.
Passarão-se assim alguns annos de vida folgada e tranquilla, durante os quaes a prole de Moraes foi-se augmentando até a época a que somos chegados,
CAPITULO III
Ciumes.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.