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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

A proposição do viajante foi aceita pois por mim e por meus companheiros com o mais vivo prazer. De feito, quem não gostará, ao descair de uma noite pura e silenciosa, em um aprazível e tranqüilo pouso em meio das solidões, recostado preguiçosamente em uma rede a fumar um bom cigarro depois de ter saboreado uma xícara de café, quem não gostará de escutar a narração de uma lenda popular?

O sol já tinha desaparecido inteiramente do horizonte; sombra, fresquidão e melancolia desciam sobre a terra no manto cinzento do crepúsculo.

O nosso jantar estava pronto; improvisou-se a mesa sobre algumas canastras reunidas, em torno das quais cada um acomodou-se do melhor modo que pôde, e serviu-se o jantar, que consistia no infalível e patriarcal feijão com toucinho, lingüiças assadas, arroz e outras coisas de que já me não lembro, regando-se tudo com um cálix de aguardente de cana, que a natureza parece ter criado de propósito nesses lugares para cortar os maus efeitos desses alimentos pesados e gordurosos. Por fim tomou-se o café, não essa tintura negra e detestável que se serve por aí nesses hotéis e hospedarias com o nome de café, mas o verdadeiro café aromático e balsâmico, tal como se sabe preparar em Minas, e cujos deliciosos vapores aquecem o cérebro e expandem tão suavemente o coração.

Enfim, estando já tudo arranjado no rancho, assentamo-nos em nossas redes aguardando a narração que o romeiro do Muquém nos prometera. Tudo foi silêncio imediatamente; cessaram as vozerias e toques de violas dos camaradas, e até os cães, deitados ao pé do fogo estendendo o focinho por sobre as patas encruzadas, pareciam escutar com religiosa atenção as palavras do narrador.

O nosso romeiro era natural dessa risonha e pitoresca região onde tem o seu berço o majestoso e opulento Jequitinhonha, que rola suas águas por sobre rubis e diamantes, dessas danosas campinas caprichosamente acidentadas, e cortadas de cristalinos ribeirões, a cujos habitantes o céu entornou no espírito as centelhas do engenho e da inspiração, como alastrou-lhes o solo de brilhantes e preciosas pedrarias. Poderia ter trinta e tantos anos; era de imaginação viva, inteligência clara, e sua linguagem e maneiras revelavam um espírito cultivado e fina educação. Nos olhos e na boca tinha notável expressão de bondade e franqueza; sua voz era de um timbre claro e sonoro. Nada pois faltava ao nosso narrador para prender todas as atenções.

Como o romeiro de Muquém tinha de seguir sua viagem por alguns dias na mesma direção que nós levávamos, durante quatro noites entreteve-nos ele os serões do pouso com a narração da história que vamos reproduzir, e que por essa razão dividiremos em quatro pousos.

POUSO PRIMEIRO

O CRIME

CAPÍTULO I

O VALENTÃO

Na cidade de Goiás, antigamente Vila Boa, existia, há de haver mais de um século, um moço que por suas turbulências e espírito de valentia tinha adquirido a mais estrondosa nomeada por todas aquelas paragens.

Era filho de pais abastados e de boa família; porém educado à larga, abandonado desde a infância a si mesmo, sempre em meio de más companhias, dotado além de tudo de índole inquieta e fogosa, este rapaz, que poderia ser um homem de bem e útil à sociedade, se uma educação regular tivesse dado salutar direção aos instintos de sua natureza, foi-se tornando um valentão famoso, talhado a molde para as galés ou para o patíbulo.

Gonçalo, que assim se chamava, aplicou-se com ardor desde criança ao manejo de armas de toda a qualidade, a domar animais bravos, a caçar, a nadar, enfim a toda sorte de exercícios do corpo os mais rudes e perigosos.

E de feito neste ponto sua educação foi completa; aos vinte anos de idade, não havia em toda capitania quem com mais destreza esgrimisse uma chavasca, quem tivesse olho mais certeiro para uma pontaria, quem melhor se segurasse nos arreios, argüentando os corcovos do burro o mais xucro, e quanto ao nadar, só poderia competir com ele a lontra, ou a capivara.

Era também agilíssimo no jogo da faca; com os pés atados bem juntos e com uma faca em punho desafiava a qualquer, e com tal destreza se defendia que nem assim o podiam tocar.

Era também hábil em manejar as armas dos índios, e sabia atirar a flecha como o mais destro dos Caiapós ou dos Chavantes. Traçava no chão um círculo de dois pés de diâmetro quando muito, entesava o arco, e mandava às nuvens uma flecha; se o ar estava tranqüilo vinha ela cravar-se infalivelmente dentro daquele círculo. Causar-lhe-ia riso a façanha desse camponês da Suíça, do qual se conta que por ordem de um tirano teve de atravessar com uma flecha uma maçã colocada sobre a cabeça de seu filho; Gonçalo teria atravessado um anel.

Mas em vez de pôr ao serviço da pátria e da liberdade sua grande força e valentia, como aquele herói, Gonçalo, áspero e turbulento por natureza e por mania, atirou-se em corpo e alma na carreira da devassidão e tornou-se um completo vadio, um famoso desordeiro.

(continua...)

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