Por Machado de Assis (1876)
D. LEOCÁDIA — Magalhães é um coração de ouro, e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.
CAVALCANTE — Disse-lhe ontem algumas tolices, não?
D. LEOCÁDIA — Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.
CAVALCANTE — Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.
D. LEOCÁDIA, pegando-lhe as mãos — Olhe bem para mim. (Pausa) Suspire. (Cavalcante suspira). O senhor está doente; não negue que está doente, — moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos.)
CAVALCANTE — Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandisíssimo desgosto...
D. LEOCÁDIA — Jogo de praça?
CAVALCANTE — Não, senhora.
D. LEOCÁDIA — Ambições políticas malogradas.
CAVALCANTE — Não conheço política.
D. LEOCÁDIA — Algum livro mal recebido pela imprensa?
CAVALCANTE — Só escrevo cartas particulares.
D. LEOCÁDIA — Não atino. Diga francamente; eu sou médico de enfermidades morais, e posso curá-lo. Ao médico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?...
CAVALCANTE, suspirando — Trata-se justamente de amores.
D. LEOCÁDIA — Paixão grande?
CAVALCANTE — Oh! imensa!
D. LEOCÁDIA — Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente, bonita?
CAVALCANTE — Como um anjo!
D. LEOCÁDIA — O coração também era de anjo?
CAVALCANTE — Pode ser, mas de anjo mau.
D. LEOCÁDIA — Uma ingrata...
CAVALCANTE — Uma perversa!
D. LEOCÁDIA — Diabólica...
CAVALCANTE — Sem entranhas!
D. LEOCÁDIA — Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas não acha casamento.
CAVALCANTE — Já achou!
D. LEOCÁDIA — Já?
CAVALCANTE — Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.
D. LEOCÁDIA — Os primos quase que não nascem para outra coisa. Diga-me, não procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes?
CAVALCANTE — Oh! não! Meu único prazer é pensar nela.
D. LEOCÁDIA — Desgraçado! Assim nunca há de sarar.
CAVALCANTE — Vou tratar de esquecê-la.
D. LEOCÁDIA — De que modo?
CAVALCANTE — De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. Penso em fazer-me frade. Há de haver em algum recanto do mundo um claustro em que não penetre sol nem lua.
D. LEOCÁDIA — Que ilusão! Lá mesmo acharás a sua namorada. Há de vê-la nas paredes da cela, no teto, no chão, nas folhas do breviário. O silêncio far-se-á boca da moça, a solidão será o seu corpo.
CAVALCANTE — Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?
D. LEOCÁDIA — Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remédio naturalmente indicado é ir pregar... na China, por exemplo. Vá pregar aos infiéis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez anos está curado. Volte, meta-se no convento, e não achará lá o diabo.
CAVALCANTE — Está certa que na China...
D. LEOCÁDIA — Certíssima.
CAVALCANTE — O seu remédio é muito amargo! Por que é que não manda antes para o Egito? Também é país de infiéis.
D. LEOCÁDIA — Não serve; é a terra daquela rainha... Como se chama?
CAVALCANTE — Cleópatra? Morreu há tantos séculos!
D. LEOCÁDIA — Meu marido disse que era uma desmiolada.
CAVALCANTE — Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora; não se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que ele adorava a V. Exa.
D. LEOCÁDIA — Ah! Ah! Já o doente começa a adular o médico. Não, senhor, há de ir à China. Lá há mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança em mim?
CAVALCANTE — Oh! tenho, tenho. Mas ao doente é permitido fazer uma careta antes de engolir a pílula. Obedeço; vou para a China. Dez anos, não?
D. LEOCÁDIA, levanta-se — Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze está curado.
CAVALCANTE — Vou.
D. LEOCÁDIA — Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá; 10 anos passam depressa.
CAVALCANTE — Obrigado, minha senhora.
D. LEOCÁDIA — Até logo.
CAVALCANTE — Não, minha senhora, vou já.
D. LEOCÁDIA — Já para a China!
CAVALCANTE — Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China. Até daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão.)
D. LEOCÁDIA — Fique ainda alguns dias...
CAVALCANTE — Não posso.
D. LEOCÁDIA — Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana.
CAVALCANTE — Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas, quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.