Por Machado de Assis (1862)
No fim de alguns minutos, voltou o capitão à sua cadeira e acrescentou: — Não me sejas palerma; atende que eu venho fazer a tua felicidade. Tua prima suspira por ti. Só o soube quando o filho do coronel Vieira foi lá pedi-la em casamento. Disse-me ela então que só se casaria contigo; e eu que a estremeço, quero fazer-lhe a vontade. Vamos; não posso esperar; decide-te.
— Meu tio, disse Vicente depois de alguns instantes, não posso dar-lhe uma resposta definitiva; mas afirmo que o que eu puder fazer estará feito.
— Boa confiança devo eu ter nas tuas palavras!
— Por quê?
— Queres saber por quê? é porque eu suponho que andarás por aí perdido, que sei eu? Como se perdem os rapazes de hoje.
— Oh! quanto a isso, juro...
— Não quero juramentos, quero uma resposta.
O capitão Ferreira era um homem de vontade; não admitia recusas, nem sabia propor coisas daquelas, quando lhe não assistia direito legal. Vicente até então vivera independente do tio; era natural que nunca contasse com a fortuna dele. Querer impor-lhe o casamento por aquele modo, era arriscar a negociação, afrontando o orgulho do moço.
O velho não reparava nisso, ficou muito admirado quando o sobrinho respondeu secamente às últimas palavras dele:
— Pois bem, a minha resposta é simples: não me caso.
Seguiu-se a estas palavras um profundo silêncio; o velho ficou fulminado.
— Não te casas? perguntou ele no fim de longos minutos.
O rapaz fez um sinal negativo.
— Reparaste bem na resposta que me deste?
— Reparei.
— Adeus.
E dizendo isto, o velho levantou-se e dirigiu-se para o quarto sem lhe dirigir um olhar sequer.
Vicente compreendeu que estava despedido e saiu.
Quando chegou à casa, achou a moça que já tivemos ocasião de ver no primeiro capítulo, a qual o recebeu com um abraço que era ao mesmo tempo um ponto de interrogação.
— Briguei com meu tio, disse o moço sentando-se.
— Ah!
— Adivinha o que ele queria?
— Mandar-te para fora daqui?
— Casar-me com a filha dele e fazer-me seu herdeiro.
— Recusaste?
— Recusei.
A moça ajoelhou-se diante de Vicente e beijou-lhe as mãos.
— Que é isto, Clara?
— Obrigada! murmurou ela.
Vicente levantou-a e beijou-lhe por sua vez as mãos.
— Tolinha! Pois há nisto motivo para me agradeceres? E chorando! Clara, deixa-te de lágrimas! Eu não gosto de ver uma moça chorona... Vamos! ri-te.
Clara sentou-se calada; via-se-lhe a alegria no rosto, mas uma alegria misturada de tristeza.
— Quem sabe? disse ela no fim de algum tempo; quem sabe se fizeste bem recusando?
— Essa agora!
— Recusaste por minha causa, e eu...
— Já vejo que fiz mal em falar-te nisto. Ora, vamos... nada de tolices; anda passear. Vicente Ferreira, desde que lhe morrera a mãe, deixara o interior da província de S. Paulo, aonde vivera, e estabeleceu-se na corte com o pouco que herdara; algum tempo empregou-se, e já sabemos que por influência do tio, que deveras o estimava. Era um rapaz um tanto orgulhoso, e imaginava que viver com o tio era mostrar-se adulador da fortuna dele, idéia esta de que fugia sempre. Quando estava em S. Paulo visitara muitas vezes o tio; mas, depois que viera para a corte, nunca mais o fez. Além dos sentimentos que já apontamos acima, não queria deixar a casa ainda que com licença do patrão, que aliás era o primeiro a oferecer-lha; e finalmente a Clara da Rua do Passeio tinha grande parte na decisão do rapaz.
Por que essa influência e como começara ela?
Apressemo-nos a tirar do espírito do leitor uma idéia que porventura já lhe tenha surgido, e vem a ser a de que a nossa Clara é uma Margarida Gauthier lavando-se nas águas do amor das culpas passadas.
Clara tinha sido raptada de casa de seus pais por um amigo de Vicente, ou pelo menos o sujeito que andava com ele — e abandonada no fim de um mês pelo tratante, que embarcou para Buenos Aires.
A moça achou-se só um dia de manhã, sem arrimo nenhum, nem esperança dele. A primeira idéia que teve foi matar-se; nessa resolução entrou por muito o amor que ainda tinha pelo rapaz. Mas o medo, a educação religiosa que lhe haviam dado depressa lhe arredaram do espírito semelhante idéia.
No meio da sua aflição lembrou-se de Vicente, que lá fora à casa dela, uma vez, em companhia do fugitivo Enéas. Mandou-o chamar e contou-lhe a sua situação. Vicente ainda não sabia da fuga do amigo, e ficou admirado que ele houvesse cometido semelhante ato de covardia. Mas, sabendo que pelo lado da justiça o raptor nada temia, admirou-se da fuga sem outro motivo aparente além da questão do rapto, motivo que não era motivo, porque um homem que furta uma moça tem sempre ânimo para conservá-la durante algum tempo, até que possa a fuga completar a obra do rapto: a audácia coroada pela covardia.
Ora, esse tempo nunca é simplesmente um mês.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.