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#Contos#Literatura Brasileira

Fernando e Fernanda

Por Machado de Assis (1866)

Madalena julgou dever guiar aquele coração que lhe parecia transviado. Foi luta vã: Fernanda estava inabalável. Depois de três dias de trabalho, Madalena declarou a Fernanda que consentia no casamento e mandou chamar Soares para dizer-lhe a mesma coisa. 

— Mas sabes tu, perguntou a boa mãe à sua filha, sabes a que vais expor o coração de Fernando? 

— Ora! há de sentir um pouco; mas depois esquecer-se-á... 

— Julgas isso possível? 

— Por que não? E quem sabe o que ele estará fazendo? Os países aonde foi talvez lhe dêem alguns novos amores... É uma por outra. 

— Fernanda! 

— Esta é a verdade. 

— Está bem, Deus te faça feliz. 

E, tendo chegado o namorado pintalegrete, Madalena deu-lhe verbal e oficialmente a filha em casamento. 

O casamento efetuou-se pouco depois. 

Ouvindo esta narração, Fernando estava aturdido. Desfazia-se em névoa a esperança suprema das suas ambições de moço. A donzela casta e sincera que supunha vir encontrar desaparecia para dar lugar a uma mulher de coração pérfido e vulgar espírito. Não pôde reter algumas lágrimas; mas poucas foram; às primeiras palavras de sua mãe adotiva pedindo-lhe coragem, Fernando ergueu-se, enxugou os olhos e prometeu não abater-se. Procurou mesmo ficar alegre. A pobre Madalena receou alguma coisa e consultou Fernando sobre os seus projetos. 

— Oh! descanse, minha mãe, respondeu este; supõe talvez que eu me mate ou mate alguém? Juro-lhe que não farei nem uma nem outra coisa. Olhe, juro por isto. E Fernando beijou respeitosamente a cabeça encanecida e veneranda de Madalena. Passaram-se alguns dias depois da chegada de Fernando. Madalena, vendo que pouco a pouco se tranqüilizava o espírito de Fernando, tranqüilizou-se também. Um dia Madalena, ao entrar Fernando para jantar, disse-lhe: 

— Fernando, sabes que Fernanda vem hoje visitar-me? 

— Ah! 

Fernando não pensara nunca que Fernanda podia visitar sua mãe e encontrar-se com ele em casa. Todavia, depois da primeira exclamação, pareceu refletir alguns segundos e disse: 

— Isso que tem? Ela pode vir; eu cá estou: somos dois estranhos... 

Madalena ficou desta vez plenamente convencida de que Fernando não sentia mais nada por sua filha, nem amor, nem ódio. 

À noite, com efeito, na ocasião em que Fernando se preparava para ler à sua mãe uns apontamentos de viagem que estava escrevendo, parou à porta um carro conduzindo Soares e Fernanda. 

Fernando sentiu palpitar-lhe violentamente o coração. Duas lágrimas, as últimas, saltaram-lhe dos olhos e correram pelas faces abaixo. Fernando enxugou-as ocultamente. Quando Madalena olhou para ele, estava completamente calmo. 

Entraram os dois. 

O encontro de Fernando e Fernanda não foi sem alguma comoção em ambos; mais apaziguada em seus amores por Soares, Fernanda entrava já na reflexão, e a vista de Fernando (que aliás ela sabia já ter voltado) era para ela uma exprobração viva do seu procedimento. 

Era mais: a presença do primeiro amante lembrava-lhe os primeiros dias, a candura do primeiro afeto, os sonhos de amor, sonhados por ambos, na doce intimidade do lar doméstico. 

Quanto a Fernando, sentia também que lhe voltavam estas lembranças ao espírito; mas, ao mesmo tempo, unia-se à saudade do passado um desgosto pelo aspecto presente da mulher que amara. Fernanda estava uma casquilha. Ar, maneiras, olhares, tudo era característico de uma revolução completa em seus hábitos e em seu espírito. Até a palidez natural e poética do rosto desaparecia debaixo de umas posturas de carmim, sem tom nem graça, aplicadas unicamente para afetar um gênero de beleza que não tinha.

Esta mudança era resultado do contacto de Soares. Com efeito, desviando os olhos de Fernanda para cravá-los nos do homem que lhe roubara a sua felicidade, Fernando pôde ver nele um tipo completo do pintalegrete moderno. 

Madalena apresentou Fernando a Soares, e os dois retribuíram friamente o cumprimento do estilo. Por que friamente? Não é que Soares já soubesse do amor que houvera entre sua mulher e Fernando. Não quero deixar supor aos leitores uma coisa que não existe. Soares era de natural frio, como um homem cujas preocupações não vão além de certas futilidades. Quanto a Fernando, compreende-se bem que não era o mais próprio a cumprimentar calorosamente o marido de sua ex-amada. 

A conversa entre todos foi indiferente e fria; Fernando procurava e requintava nessa indiferença, nos seus parabéns a Fernanda e na narração que fazia das viagens. Fernanda estava pensativa e respondia por monossílabos, sempre com os olhos baixos. Tinha vergonha de fitar aquele que primeiro lhe possuíra o coração, e que era agora o remorso vivo do seu amor passado. 

(continua...)

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