Por Machado de Assis (1866)
A casa do doutor era situada em uma pequena eminência, onde, vista de longe, parecia uma garça pousada em uma elevação de relva.
No jardim e no interior tudo respirava o gosto e a arte, mas uma arte severa e um gosto discreto, que excluíam todas as superfluidades sem valor para dar lugar a tudo o que entra nas preferências dos espíritos cultivados.
No jardim algumas plantas exóticas e belas adornavam os canteiros regulares e cuidados. Dois caramanchões elegantes e leves ornavam o centro do jardim, um de cada lado, passando entre ambos uma rua larga flanqueada de pequenas palmeiras. — É aqui, disse-me o velho, que havemos de ler Teócrito e Virgílio.
A casa, mobiliada com elegância, era pequena; mas tudo muito bem distribuído, tudo confortável, de modo que as paredes externas tornavam-se os limites do mundo. Vivia-se ali.
O doutor possuía mil lembranças das suas viagens; cópias de telas atribuídas aos grandes mestres de pintura, manuscritos, moedas, objetos de arte e de história, tudo ornava o gabinete particular do doutor, nessa confusão discreta que resume a unidade na variedade.
Uma biblioteca das mais escolhidas chamava a atenção dos estudiosos em um dos gabinetes mais retirados da casa.
— Agora que já viu isto tudo, deixe-me apresentá-lo a meu irmão.
E chamando um moleque mandou chamar o irmão. Daí a pouco vi entrar na sala em que nos achávamos um homem alto, menos velho que o doutor, mas cujas feições indicavam a mesma placidez de alma e qualidades do coração.
— Mano Bento, disse o doutor, aqui te apresento o sr.... É um amigo. Bento recebeu-me com a maior cordialidade e dirigiu-me palavras da mais tocante benevolência.
Vi então que a palavra amigo era para os dois um sinal de distinção e que havia entre ambos a certeza de que quando um deles chamava amigo a um terceiro é que este o era e merecia a afeição do outro.
No mundo, de ordinário, não é assim. Hoje, mais ainda que ao tempo de Molière, é verdadeira e cabida a indignação de Alceste:
Non, non, il n’âme un peu bien située
Qui veuille d’une estime ainsi prostituée. *
III
No fim de um mês de convalescença resolvi voltar para a cidade.
Que mês aquele!
O doutor saía de manhã e voltava à tarde para casa. Durante o dia ficávamos eu e o irmão do doutor, matávamos o tempo passeando ou conversando; Bento não era tão instruído como o doutor, mas tinha a mesma bondade e afabilidade, de modo que eu sempre ganhava com um ou com outro.
À tarde quando o doutor chegava punha-se o jantar à mesa; e depois íamos ler ou passear pelos arredores.
Ainda me lembro dos passeios que fizemos ao alto da Tijuca. Às sete horas da manhã vinham dizer-nos que os cavalos estavam prontos. O doutor, eu e Bento saíamos imediatamente. Um criado nos acompanhava levando uma pequena canastra. Chegando ao termo do passeio, o doutor escolhia um lugar favorável e mandava abrir a canastra. — É uma refeição de preparo, dizia ele.
E, debaixo de uma árvore, às brisas frescas da montanha, comíamos algumas frutas secas com vinho velho e pão.
Tendo resolvido voltar para a cidade, mesmo para adiantar os negócios que me traziam à corte, e que se achavam atrasados, dispus-me a dar parte disso aos meus hóspedes. Era de manhã, voltava eu de um passeio à roda do jardim. Entrei pelo fundo. Na sala de visitas estavam o doutor e Bento. Ouvi-os conversar e pronunciar o meu nome. Não podiam pronunciá-lo senão em sentido favorável. Picou-me a vaidade. Quis ouvir o meu elogio na boca daqueles dois amigos, tão recentes e tão completamente amigos. — Mas que tem isto com...? perguntou Bento.
— Tem tudo, respondeu o doutor.
— Explica-me.
— Sou, como sabes, amigo desse moço...
— Também eu...
— Mas esta amizade é tão recente que ele ainda não tem tempo de nos conhecer. Pelas nossas conversas soube eu que ele possui uma fortuna muito regular. Obriguei-o a vir para aqui. Se Ângela vier agora para casa, parecerá que, contando com o coração e a mocidade de ambos, armo a fortuna do rapaz.
— Ele não pode pensar isso.
— Sei que é uma boa alma, mas é tão mau o mundo, pode fazer-lhe supor tanta coisa... — Enfim, eu insisto, porque a pobre menina escreveu-me dizendo que está com saudades da casa. A própria tia, sabendo disto, deseja que ela venha passar uns tempos conosco.
Nisto entrou na sala um moleque dizendo que o almoço estava na mesa. Eu retirei-me ao meu quarto, onde o doutor e Bento me foram buscar. À mesa, não me pude ter. Enquanto o doutor me deitava vinho no copo, disse-lhe sorrindo:
— Meu amigo, acho que faz mal em privar-se de uma felicidade que lhe deve ser grande. — Que felicidade?
— A de ter sua filha perto de si.
— Ah! exclamaram os dois.
— É sua filha D. Ângela, não?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Felicidade pelo casamento. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.