Por Machado de Assis (1876)
— Há de estar, como está sempre, respondeu o tio; tanto te acostumaste a servir-me, que nunca há açúcar, de mais ou menos. Excelente! continuou ele, levando a colherinha à boca. Agora faze o teu chá e ouve uma notícia.
Lulu preparou uma xícara de chá para si e sentou-se do outro lado da mesa, diante do padre. Era uma deliciosa figurinha delgada e quebradiça cintura de vespa, mãos de criança e sobre tudo isto, uma voz angelical e doce, que adormecia o coração. Adormecia é a expressão verdadeira; podia-se viver ao pé dela sem que o coração pulsasse de amor, tão acima e fora da realidade parecia aquela amável criatura. Não havia fogo em seus olhos claros e serenos; havia luz somente, luz branda como a de luar, que se derramava por todo o rosto, alvo e levemente corado. Os cabelos, penteados em bandós, iam juntar-se atrás da cabeça e caíam em duas tranças finas, atadas na ponta por laços de fita azul. Azul era a cor do cinto que trazia destacando sobre o branco do vestido de cassa, cortado e trabalhado com extrema simplicidade. Nenhum enfeite mais; e quadrava lhe tanto aquela ausência de adornos, que parece lhe destoaria o menor deles que se lembrasse de pôr.
O padre Sá admirou durante alguns instantes a sobrinha, não ostensivamente, mas à socapa, com uma reserva e discrição, cujo sentido era fácil de adivinhar. Ele não queria acordar-lhe o sentimento da vaidade, que faria desmerecer-lhe a natural beleza, cujo maior encanto era ser inconsciente e singela. Além disso, e antes disso, a alma vaidosa ficaria mais perto do pecado; e o padre Sá tinha posto todo o seu zelo em educar aquela alma na prática das virtudes cristãs.
— A tia Mônica onde está? perguntou o velho sacerdote, depois de alguns instantes. — Deitou-se hoje mais cedo, respondeu a moça, dói-lhe a cabeça, creio eu. Mas que notícia é a que me quer dar, titio?
— Curiosa! murmurou o tio sorrindo.
— A culpa é sua.
— Uma notícia agradável a Deus, disse o padre reassumindo o seu ar grave; um servo do altar alcançado por mim. O Pedro Mendes...
— Quer ser padre? interrompeu a moça admirada.
— Parece-me que sim. Há algum tempo notei nele certa vocação eclesiástica; ouve-me com tanta atenção e respeito, é tão curioso das coisas sagradas, aprende tão depressa as lições que lhe dou nas minhas horas vagas, que me pareceu ver nele um bom levita do Senhor. Ontem, falei-lhe francamente nisso; e obtive boa resposta... Deita mais chá. O padre estendera a xícara; a moça obedeceu prontamente.
— Mas parece tão criança, para padre! observou Lulu, restituindo a xícara ao tio. — Oh! mas daqui até lá! Pensas que eu tomei ordens com esta calva e estes cabelos brancos ? Certamente que ele não vai tomar ordens amanhã. A resposta que obtive foi que tinha vontade de servir a Igreja; fiquei de falar à mãe, e agora mesmo venho de lá! — Ah!
—D. Emiliana não me deu resposta definitiva, mas creio que não haverá obstáculo sério. Imagina tu a minha satisfação. Os que são verdadeiramente dedicados ao serviço do altar, como eu, têm um gosto infinito em colher bons servidores para ele, almas cândidas, vocações sinceras, fortes e puras! Se me sai naquele um pregador! Um Sampaio! um Mont’Alverne! Se me sai um bispo! Talento tem ele; muita compreensão e vontade de saber...
O padre Sá continuou a louvar o futuro colega e a falar das vantagens da vida eclesiástica, a melhor de todas, dizia ele, se há vocação. Lulu tinha acabado o chá e ouvia-o com muito menos interesse do que a princípio. Educada pelo tio, compreendia e aprazia-se naquele gênero de conversação, contudo, era necessário que ela não durasse muito para poder estar atenta. O tio percebeu finalmente, e tratou de coisas menos austeras. Veio um tabuleiro de damas, jogo inocente em que os dois concorriam às vezes alguns minutos. Jogaram até às dez horas; despediram-se e foram dormir. — Ah! disse o padre, depois de abençoar a sobrinha; sabes se o Alexandre estará doente?
— Não sei.
— Há dois dias que não aparece; é preciso mandar saber dele amanhã. Bela alma, aquele rapaz!
Lulu corou um pouco; beijou-lhe outra vez a mão e saiu. O tio acompanhou-a com olhos namorados, e ficou durante algum tempo concentrado e pensativo. Depois murmurou em latim este versículo dos Cantares:
Eu me assentei debaixo da sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e o seu fruto é doce à minha garganta.
IV
Lulu retirou-se à sua alcova, fechou a porta, e preparou-se para dormir. Antes, porém, de despir-se, foi direito ao toucador, abriu uma gavetinha, tirou de dentro um bilhetinho e releu-o. O bilhete dizia assim: “.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.