Por Machado de Assis (1873)
— Penso que homem gordo não faz revolução. O abdome é naturalmente amigo da ordem; o estômago pode destruir um império; mas há de ser antes de jantar. Quando Catilina encabeçou a célebre conjuração a quem foi procurar? Foi procurar a gente que não tinha um sestércio de seu; a turba dos clientes, que vivia de espórtulas, não os que viviam pomposamente em Túsculo ou Baïas.
Achei curiosa a doutrina e disse a propósito algumas palavras que nos distraíram do assunto principal.
O genro de Catão continuou:
— Não lhe contarei, pois sabe a História, a conjuração dos idos de março. Apenas lhe direi que eu entrara naquela sinceramente, porquanto, como muito bem disse um poeta inglês, que depois me meteu em cena, eu matei César, não por ódio a César, mas por amor da República.
— Apoiado!
— O senhor é deputado? perguntou o velho sorrindo.
— Não, senhor.
— Pensei. Aproveito a ocasião para dizer-lhe que a tática parlamentar de tomar tempo com discursos até o fim das sessões não é nova.
— Ah!
— Foi inventada por meu ilustre sogro, o incomparável Catão, quando César, voltando vencedor da Espanha, queria o triunfo e o consulado. A assembléia inclinava-se a favor do pretendente; Catão não teve outro meio: subiu à tribuna e falou até a noite, falou sem parar um minuto. Os ouvintes ficaram estafados com a arenga, e César vendo que não podia ceder a um homem daquele calibre, dispensou o triunfo, e veio pleitear o consulado. — De maneira que hoje quando um orador toma o tempo até o fim da hora?... — Está na altura de Catão.
— Tomo nota.
— Ah! meu rico senhor, a vida é uma eterna repetição. Todos inventam o inventado. — Tem razão.
— Matamos o divino Júlio, e mal lhe posso dizer o assombro que se seguiu ao nosso crime... Crime lhe chamo porque reconheço hoje que o era; mas sou obrigado a dizer que o ilustre César ofendera a majestade romana. Eu não fui o inventor da conjuração; toda a gente estava inspirada dos meus desejos. Eu não podia entrar no senado que não achasse essa cartinha: “ ou então: “. De toda a parte me instigaram. Uniram-se todos os ódios ao meu, e o mundo presenciou aquela tremenda catástrofe...
Jaime ou Bruto, que eu realmente não sei como lhe chame, concentrou um pouco o seu espírito; depois levantou-se, foi à porta, espiou, deu uma carreirinha e veio sentar-se defronte de mim.
— Há de ter lido que a sombra de César me apareceu depois duas vezes, sendo que, da segunda, veio silenciosa e silenciosa foi. É um erro. Da segunda vez foi que eu ouvi tremendo segredo que lhe vou revelar. Não o disse a ninguém por medo, e medo do que se dissesse de mim. Vá, abra os ouvidos...
Nesse momento o gato começou a dar saltos vertiginosos.
— Que diabo é isto? disse eu.
— Não sei; creio que está com fome. São horas de cearmos.
Jaime-Bruto foi buscar a ceia do gato, e trouxe para a mesa um assado frio, pão, queijo
inglês, e vinho italiano e figos secos.
— Os vinhos italianos são uma recordação de minha vida anterior, disse ele. Quanto aos figos, se não são de Túsculo, ao menos os fazem lembrar.
Comemos tranqüilamente; eram então oito horas, e o velho estava ansioso que batessem as doze. Ao cabo de meia hora acendeu ele um charuto, e eu o mesmo que ele me havia dado de manhã, e continuamos a falar de César.
— Apareceu-me a sombra, disse ele, e desenrolou um libelo dos males que eu havia feito à República com a morte dele, e ao mesmo tempo acrescentou que o meu crime nada salvara, pois era inevitável a decadência da República. Como eu respondesse um pouco irritado, a sombra soltou estas fatídicas palavras: “
Tirei o charuto da boca, e contemplei a cara do meu interlocutor. Era impossível que não estivesse próximo um acesso de loucura; mas o olhar do homem conservava a mesma inteligência e serenidade. Ele respirava a fumaça com delícias e olhava, ora para o teto, ora para o gato.
— É um doido manso, pensei eu, e continuei a fumar enquanto o velho continuou: — Compreende o senhor por que motivo receio esses malditos idos de março, aniversário do meu crime.
Atirou fora o charuto.
— Não fuma? perguntei eu.
— Destes não fumo hoje.
— Quer dos meus?
— Aceito.
Dei-lhe um charuto, que ele acendeu, e eu continuei a fumar o dele, que me fazia sentir delícias inefáveis. Ia-se-me o corpo ficando mole; estendi-me na poltrona e prestei ouvidos ao anfitrião.
Este passeava vagarosamente, gesticulando, rindo sem motivo, outras vezes chorando, tudo como quem tem alguma mania na cabeça.
— Não me dirá, perguntei eu, se é neste gato que está a alma de Júlio? — Sem dúvida, é neste bicho que se meteu a alma daquele grande homem, o primeiro do universo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Decadência de dois grandes homens. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1873.