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#Epopeias#Literatura Brasileira

Feitos de Mem de Sá

Por José de Anchieta (1563)

Eia, pois, sem tardar, lança-te ao mar encrespado

e de novo provoca as vagas em naus bem armadas.

Voa em auxílio da pobre gente no que puderes.

Qualquer a sorte que te espera, quaisquer os trabalhos,

esforça-te por arrostá-los e suplantá-los com brio.

Se a destra onipotente te conservar são e salvo

e te conceder, com a derrota do inimigo, o pendão da vitória

e desdobrar ao olhar paterno os sinais do triunfo:

ditoso dia nos será a ambos! A Deus soberano

cumpriremos os votos e renderemos os devidos louvores.

A glória conquistada em guerra pela honra divina

te será muito doce: eis, filho, o teu belo futuro!

Se porém por desígnio imutável do Pai sempiterno

o último alento te colher na primavera da vida,

se a morte te arrancar em plena flor da existência:

então te aguardarão imarcescíveis louros e honra perene,

glória imorredoura dourará nos céus teus destinos!

Trocam-se assim pelo dia eterno efêmeros dias

À luta pois com braço forte, e no fundo do peito

gravado o nome do Senhor que governa o universo”!

Assim falando envia o filho à empresa gloriosa.

Dá-lhe quatro dezenas de companheiros bem equipados,

manda soltar ao vento as velas, e à divina clemência

roga auspiciar as primeiras estréias do jovem.

De pronto ergue as âncoras a marujada valente

e em voz cadenciada puxa as amarras que vai recolhendo

em círculos. Volta proas à vaga a marulhar mar em fora,

desdobra dos altos mastros o cândido linho,

enquanto o vento, bojando as velas, as cordas estira.

O Norte se abate sobre o mar, o casco impelindo

e abaulando as velas; voa a lisa proa, cortando

o pego espumante, roçando apenas o dorso das ondas.

Ora aqui, ora além fundeia nos litorais rumorosos.

Só se abranda o rondo do oceano enraivado,

quando a Ursa Maior o bafeja com ventos propícios

e a nau, vencida muitas milhas, ferra os diversos

portos dos cristãos. Muitos logo aí se oferecem

ao intrépido chefe para sócios da empresa e da sorte.

Vai pois o jovem brioso escoltado de cem companheiros

ansiosos por domar com as armas a altivez do selvagem.

Já no termo da rota, e perto das aldeias dos brancos,

a que vinha socorrer ainda a tempo, penetra

na foz espaçosa de grande rio, e remando

contra o ímpeto da corrente veloz, se dirige

ao acampamento inimigo. Aí ajuntara o gentio

forças vindas de toda a região em redor.

Das fortificações, umas se ocultam em selvas sombrias

do lado em que o sol, deixando o zênite, se engolfa no plaino;

outras, escondidas juntos dos litorais arenosos,

ouvem o troar das ondas que se enrolam e quebram.

O melhor da mocidade foi destinada a esses lugares:

ergueram aí, em vasta construção, três fortalezas

cercadas de larga trincheira de troncos gigantes.

Rodeavam cada um dos fortes seis voltas de lenhos,

robles descomunais, fincados na terra, ligados

a madeiras transversais com cipós da floresta.

Era um muro soberbo: duas torres e três baluartes

o reforçavam de cada lado; neles estreitas janelas,

quais furos invisíveis, foram deixadas, por onde

pudesse o arco estridente soltar a seta ligeira,

causando com golpes traiçoeiros feridas de morte.

Aí se ajuntara toda a juventude guerreira

de sangue borbulhante e sedento de lutas infames.

Brande as armas feroz: o arco e as setas velozes,

o tacape ornado de penas várias, alisado e polido

pela mão do bárbaro com o ferro ou dente afiado

do porco montês: em todas as suas ferozes usanças

é a arma que os serve. Têm também impenetráveis escudos,

couros peludos, arrancados ao dorso das feras

e endurados ao sol. Pintam os membros robustos

com as cores da tribo: tingem com listas vermelhas

as faces, a fronte e as meias pernas; o resto do corpo

com riscas pretas, tão bem enlaçadas, membro por membro,

que imita a pele pintada verdadeiros vestidos,

que em nada desmerecem dos que, com o requinte da arte,

borda a agulha na mão habilidosa do artista,

nem das redes caprichosas, tecidas de fios variados.

Outros depenam o peito e as costas de inúmeras aves

e tingindo-lhes as penas de variadíssimas cores

colam-nas ao corpo, untado todo de visgo.

Outros ornam o topete com asas de pássaros

e dependuram muitos enfeites dos penteados cabelos.

Com estes e muitos outros adereços, medonhos e feios,

cobrem os membros nus os selvagens ferozes.

Ao vê-los o herói, poderosos em número e armas,

(continua...)

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