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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

63. Pois que havemos de fazer, para não cometer um erro tão grande e tão sem remédio? Fazer remédio da mesma tentação. Tomar na mão a balança que faltou a Esaú, e pesar o que o demônio nas promete e o que nos pede. O que nos promete não é todo o mundo; o que nos pede, e o que lhe havemos de dar, é a alma. Ponhamos de uma parte da balança o mundo todo, e da outra parte uma alma, e vejamos qual pesa mais. Oh! se Deus me ajudasse a vos mostrar com evidência a diferença destes dois pesos! Vamos ponderando uma por uma as mesmas palavras da tentação.

§III

O mundo fantástico que o demônio mostrou a Cristo era nada mais que uma vaidade composta de muitas vaidades, como diz Salomão. As balanças do juízo humano segundo Davi. O peso das coisas não estão nas coisas, senão no coração com que as amamos. A brevidade momentânea das tentações. As riquezas e glórias do mundo: um trabalho para antes, um cuidado para logo, um sentimento para depois. Andou muito néscio o demônio em mostrar o mundo a quem queria tentar.

64. Ostendit ei omnia regna mundi, et gloriam eorum. Desde aquele monte alto, onde o demônio subiu a Cristo, lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória. Isto, que tão facilmente se diz, não é tão fácil de entender. De um monte, por alto que seja, não se pode descobrir todos os reinos do mundo. O sol está levantado na quarta esfera, e contudo descobre um só hemisfério, e nem vê, nem pode ver os antípodas. Pois como foi possível que o demônio desde aquele monte mostrasse todo o mundo a Cristo? A sentença mais certa e mais seguida é que o mundo que o demônio mostrou a Cristo não foi este mundo verdadeiro, senão um mundo fantástico e aparente, uma aparência e representação do mundo. Assim como os anjos, quando aparecem aos homens, se vestem de corpos fantásticos que parecem corpos formosíssimos, e não são corpos, assim o demônio, que no poder natural é igual aos anjos, em toda o ar que se estendia daquele monte até os horizontes, com cores, com sombras, com aparências, pintou e levantou em um momento, montes, vales, campos, terras, cidades, castelos, reinos, enfim um mundo. De maneira que todo aquele mundo, todo aquele mapa de reinos e de grandezas, bem apertado, vinha a ser um pouco de vento. E com ser assim esta representação – notai agora – com ser o que o demônio mostrava uma só representação fantástica, uma aparência, contudo diz o evangelista que o demônio mostrou a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias, por que todas as glórias e todas as grandezas do mundo, bem consideradas, sãa o que estas eram: ar; vento, sombras, cores aparentes. Antes diga que mais verdadeiro e mais próprio mundo era este mundo aparente, que o mundo verdadeiro; porque o mundo aparente eram aparências verdadeiras, e o mundo verdadeiro são as aparências falsas. E se não, dizei-me: de todos aqueles reinos, de todas aquelas majestades e grandezas que havia no tempo de Cristo quando sucedeu esta tentação, há hoje alguma coisa no mundo? Nenhuma. Pois que é feito de tantos reinos, que é feito de tantas monarquias, que é feito de tantas grandezas? Eram vento, passaram; eram sombra, sumiramse; eram aparências, desapareceram. Ainda agora são o que de antes eram: eram nada, são nada. Até dos mármores daquele tempo não há mais que pó e cinza; e os homens, como bem notou Filo Hebreu, vendo isto com os nossos olhos, somos tão cegos que fazemos mais caso deste pó e desta cinza, que da própria alma: Qui cinerem, et pulverem pluris factis, quam animam.

65. Isto são hoje os reinos daquele tempo; e os reinos de hoje, que são? São porventura outra coisa? Diga-a o rei do reino mais flarente, e o mais sábio de todos os reis: Verba Ecclesiastae, filii David, regis Hierusalem: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas.11 Eu fui rei, e filho de rei – diz Salomão – experimentei tudo o que era, e tudo o que podia dar de si o poder, a grandeza, o senhorio do mundo, e achei que tudo o que parece que há nele, é vão, e nada sólido, e que bem pesado e apertado, não vem a ser mais que uma vaidade composta de muitas vaidades: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas. Vaidade os cetros, vaidade as coroas, vaidade os reinos e monarquias, e o mesmo mundo que delas se compõe, vaidade das vaidades: Vanitas vanitatum. Esta é a verdade que não sabemos ver, por estar escondida e andar enfeitada debaixo das aparências que vemos. E este é o conhecimento e desengano com que devemos rebater e desprezar o tudo ou o nada com que nos tenta o mundo. Oh! como ficariam desvanecidas as maiores tentações, se soubéssemos responder ao omnia do demônio com o omnia de Salomão: Omnia regna mundi? Omnia vanitas. Omnia tibi dabo? Omnia vanitas.

(continua...)

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