Por Padre Antônio Vieira (1673)
Bem creio eu que haverá bem poucos que quiseram antes trocados estes termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade, e não para o tempo, para a verdade e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer; em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender; morrendo, a saber morrer. Nenhuma coisa se faz bem da primeira vez, quanto mais a maior de todas, que é morrer bem. Reparo é digno de toda a admiração, que sendo tantas as meditações da morte, e tantos os espertadores deste desengano, sejam tão poucos os que sabem morrer. Mas a razão desta experiência e desta desgraça é porque as artes ou ciências práticas não se aprendem só especulando, senão exercitando. Como se aprende a escrever? Escrevendo. Como se aprende a esgrimir? Esgrimindo. Como se aprende a navegar? Navegando. Assim também se há de aprender a morrer, não só meditando, mas morrendo. Por isso Cristo nos ensinou em Lázaro a morrer duas vezes: uma vez para que aprendêssemos, outra para que soubéssemos morrer. Ao paralítico, e a outros a quem o Senhor deu saúde milagrosa, depois de os sarar, pregava-lhes; a Lázaro, e aos demais que ressuscitou, nenhum documento lhes deu. E por quê? Porque eram homens que já morreram uma vez, e haviam de morrer outra, e quem morre antes da morte, não há mister mais doutrina para bem morrer.
O inferno e a condenação eterna (que é o paradeiro dos que morrem mal), chama-se no Apocalipse morte segunda. E faz menção ali S. João de certas almas, em quem a morte segunda não tem poder: In his secunda mors non habet potestatem (Apc. 20,6). E que almas venturosas são estas, em quem não tem poder a morte segunda? Todos, enquanto estamos sujeitos à morte primeira, que é a morte temporal, estamos também arriscados à morte segunda, que é a morte eterna, porque todos nos podemos condenar e ir ao inferno. Que almas são logo estas privilegiadas que totalmente se isentam do poder e jurisdição da morte segunda? São as almas daqueles que com verdadeira resolução e perseverança souberam acabar a vida antes da morte e morrer antes de morrer. Das mesmas palavras de S. João se colhe, se bem as consideramos. E se não, pergunto: Por que se chama a morte eterna precisa e determinadamente morte segunda, e não mais que segunda? Porque não pode ser morte senão daqueles que uma só vez. Morte segunda refere-se à morte primeira, e supõe antes de si outra morte, mas uma só, e não mais que uma, porque se as mortes antecedentes fossem duas, já não seria morte segunda, senão morte terceira. E como os que morrem em vida morrem duas vezes, uma quando morrem, e outra antes de morrer; já não tem neles lugar morte segunda. Para quem morre uma só vez há no inferno morte segunda; para quem morre duas vezes, não há lá morte terceira. Por isso a que se chama segunda, não tem sobre eles poder: In bis secunda mors non habet potestatem. Oh! ditosos aqueles, que para evitar o perigo da morte segunda, souberem meter outra morte diante da primeira!
Cristãos, e senhores meus, se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte: morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama: morrei na saúde, e em pé. E se quiserdes para esta grande empresa um corpo, ou hieroglífico natural, não notado por Plínio ou Marco Varro, senão por autor divino e canônico, eu vo-lo darei. Foi notar S. Judas Tadeu naquela sua admirável epístola, que as árvores morrem duas vezes: Arbores autumnales, infrutuosae, bis mortuae.9 A primeira vez, morrem as árvores em pé, a segunda deitadas; a primeira, quando se secam; a segunda, quando caem. Platão disse que os homens são árvores às avessas, e eu acrescento que, se morrerem como as árvores, serão homens às direitas. Na árvore, enquanto lhe dura a vida, ou a verdura, tudo são galas, tudo pompa, tudo novidades; morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez, e daquele corpo tão formoso e vário, que vestiam as folhas, que guarneciam as flores, que enriqueciam os frutos, não se vê mais que um cadáver seco, triste e destroncado. Neste despojo de tudo o que tinha sido, presa ainda pelas raízes, e sustentando-se na terra, mas não da terra, espera a árvore em pé a última caída, e esta é a segunda morte, com que de todo acaba. Assim deve acabar antes de acabar, quem quer acabar bem. Quantas primaveras têm passado por nós, quantos verões, e quantos outonos, e pode ser que com menos fruto que folha e flores! O que fazem os anos nas árvores, bem o puderam já ter feito em muitos de nós os mesmos anos. E é bem que a razão e o desengano o faça em todos, pois são mais fracas as nossas raízes. Espereinos mortos pela morte, e esperemo-la em pé, antes que ela nos deite na sepultura. Oh! ditosa sepultura a daqueles na qual se possa escrever com verdade o epitáfio vulgar do grande Escoto: Semel sepultus, bis mortuus: Uma vez sepultado, e duas morto.
§IV
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.