Por Gregório de Matos (1696)
COROU A FORMOSA BRITES ESTAS PRECIOSAS MENTIRAS DAQUELLE GALHARDO ENGENHO COM HUM ALEGRE RISO NA PRIMEYRA OCCASIÃO, QUE TEVE DE ENCONTRO COM ELLA, PARA CONTRADIZER-SE CAVILLOSO; O QUE LHE DEO MOTIVO PARA FAZER O SEGUINTE.
MOTE
Se é por engano esse riso,
fortuna, não me contenho,
que tens comércio co vento,
e mudas-te de improviso.
1
Se haveis por pouco custoso
pagar meu amor, Senhora,
vos quero afirmar agora,
que é muito dificultoso:
porque se um olhar iroso
me rouba a vontade, e sigo,
argumento é não preciso,
que amor me pagais assim
com um rir-vos para mim,
Se é por engano esse riso.
2
Um amor paga outro amor:
logo mal podeis pagar-me
um render-me, e cativar-me,
que são obras de rigor:
se me déreis um favor
levada do rendimento,
fora igual o pagamento;
porém sendo eu firme amante
com acasos de inconstante,
Fortuna, não me contenho.
3
Mas não te enojes, fortuna,
de que em matérias de amor
repudie um tal favor,
por quem a alma te importuna:
em hora mais oportuna
o aceitarei mais atento,
mas por agradecimento
do mais firme amor aqui
tanto não fio de ti,
Que tens comércio co vento.
4
Tu não és vento mudável,
nem és nuvem aparente,
nem exalação corrente,
és fortuna variável:
em um peito incontrastável,
onde o fim está indeciso,
não faz fincapé, nem siso
teu jeroglífico errante,
que és vária, como inconstante,
E mudas-te de improviso.
A GRACIOSA BRITES, DE QUEM JA FALLAMOS POR COMER HUM CAYJU, QUE VINHA PARA O POETA.
1
Se comestes por regalo,
Brites, o caju vermelho,
tomastes mui mau conselho,
e temo, que heis de amargá-lo
no pomo há de ter abalo
toda a vossa geração,
pois vós sem comparação
gulosa à Eva excedestes,
quando só por só comestes,
sem dar parte ao vosso Adão.
2
Pôs-vos Deus Eva segunda
nesse novo paraíso,
fiando de vosso siso,
que fosses menos imunda:
vós como mais moribunda,
mais fraca, e mais alfenim
comestes o pomo enfim,
e por lhe meter o dente
não fugistes da serpente,
e andais fugindo de mim.
3
Sinto amarguissimamente,
que visto o vosso pecado
hei de sair condenado,
como se fosse a serpente:
do Vigário era o presente,
e meu o caju do meio,
e assim com razão receio,
que pelo vosso pecar,
hei de sair a arrastar,
como a serpente lhe veio.
4
Eu não vos persuadi,
para haveres de o comer,
que Deusa havíeis de ser,
pois Deusa sempre vos vi:
mas vendo o caju rubi,
gulosa, e arremessada
lhe fostes dar a dentada,
e diz a lei com a glosa,
que pois fostes a gulosa,
haveis de ser arrastada.
TENDO BRITES DADO ALGUMAS ESPERANÇAS AO POETA SE LHE OPPOZ UM SUGEYTO DE POUCOS ANNOS, PERTENDENDO-A POR ESPPOSA, RAZÃO POR ONDE VEYO ELLA A DESVIAR-SE, DESCULPANDO-SE POR SER JA VELHO.
1
P. Ao Velho, que está na roça,
que fuja às Moças dizei.
R. A bofé não fugirei,
enquanto Brites for moça.
Se lhe não fazeis já mesa,
por que não heis de fugir?
P. Por quê? Porque hei de cumprir
co'a obrigação de cascar,
dando-lhe sete ao entrar,
e quatorze ao despedir.
2
E já que em vosso sujeito
há fidalguia estirada
honrai-me, que a que é honrada
não perde a um velho o respeito.
P. Tendes comigo mau pleito
pelas cãs, que penteais.
R. Nisso mais vos enganais,
que eu penteio desenganos,
não pelo peso dos anos,
pelo pesar, que me dais.
SABENDO O POETA O MOTIVO DO DESVIO LHE MANDOU ESTAS DÉCIMAS.
1
Se mercê me não fazeis
pelas cãs, que me enxergais,
vós sois, a que perdeis mais,
pois tal simpleza dizeis:
que se a um velho aborreceis
por ser homem de maior,
que heis de fazer ao menor?
porque se pela trocada
deixais o muito por nada,
entendeis pouco de amor.
2
Não vos entra no miolo,
que é de valor mais subido
um velho, sendo entendido
que um menino, sendo tolo?
Se da Dama de alto colo
(diz a história, que dizia)
que para o que ela queria,
arto sabia o seu preto
de teologia, um discreto
sabe inda mais teologia.
3
A diferença, que há
entre o homem, e entre o bruto,
é da razão o atributo,
que Deus aos homens nos dá:
logo mais homem será
o homem, que é mais sagaz,
mais homem o mais capaz,
mais home o mais racional,
e o rapaz mais animal
mas bruto por mais rapaz.
AO MESMO ASSUMPTO E PELO MESMO MOTIVO.
Senhora Beatriz: foi o demônio
Este amor, esta raiva, esta porfia,
Pois não canso de noite nem de dia
Em cuidar nesse negro matrimônio.
Oh se quisesse o Padre Santo Antônio,
Que é Santo, que aos perdidos alumia,
Resvelar-lhe a borrada serventia
Desse Noivo essa purga, esse antimônio!
(continua...)
MATOS, Gregório de. Brites. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.