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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Briga, briga

Por Gregório de Matos (1696)

20
Por não querer confessar-te,
o Cura te declarou,
e esta Quaresma tornou
o Vigário a declarar-te:
da Igreja o vi lançar-te
em uma solene festa;
mas tu de uma acção como esta
não te corres, sendo humano:
não te envergonhas, magano?

21
Tens mudado mais estados,
que formas teve Proteu,
não sei, que estado é o teu,
depois de tantos mudados:
sei, que estamos admirados
de te vermos rejeitar
a murça capitular,
para casar como insano:
não te envergonhas, magano?

22
A nenhum jurista vês
que logo não vituperes,
chamando-lhe néscio, e queres
contradizer, quanto lês:
eu sei, que mais de uma vez
disseste já na Bahia,
que Bártolo não sabia,
e que era um asno Ulpiano:
não te envergonhas, magano?

23
Arrezoando em um feito,
por mofar do Julgador,
fizeste do mal pior,
fazendo torto o direito:
porém se no teu conceito
todos os mais sabem nada,
tua ciência é palhada,
se se vê com desengano:
não te envergonhas, magano?

24
Lembra-te, quando o Prelado
pelas tuas parvoíces
decretou, que te despisses
do hábito atonsurado:
não ficaste envergonhado,
porque não há, quem te ponha
na cara alguma vergonha
ante o Povo Baiano:
não te envergonhas, magano?

25
Vieste de Portugal
acutilado, e ferido,
e do Burgo socorrido,
a quem pagaste tão mal:
essa sátira fatal
te desterrou a esta terra,
mas cutiladas em guerra
sempre as de o valor humano:
não te envergonhas, magano?

26
Admira excessivamente,
que mandando-te apear
certo homem para te dar
disseste "não sou valente":
mas se és galinha entre gente,
assim havias fazer,
cacarejar, e correr,
que em ti é ofício lhano:
não te envergonhas, magano?

27
Fala de ti, que bem tens,
que falar de ti, Gregório,
e a todo o mundo é notório,
que tens males, e não bens:
não queiras pôr-te aos iténs,
com quem sobre castigar-te
sei, que há de esbofetear-te,
e com este desengano,
não te envergonhas, magano?

28
Vê, que te quero cascar
por outra sátira agora,
pois nem a ver o sol fora,
queres à porta chegar:
pois sabe, que hás de apanhar
mais de quatro bordoadas,
e com maiores pancatas,
que as do teu papel insano:
não te envergonhas, magano?

A CERTO FRADE QUE SE METTEO A RESPONDER À HUMA SATYRA, QUE FEZ O POETA, ELLE AGORA LHE RETRUCA COM ESTOUTRA.

Ilustre, e reverendo Frei Lourenço,
Quem vos disse, que um burro tão imenso,
Siso em agraz, miolos de pateta
Pode meter-se em réstia de poeta?

Quem vos disse, magano,
Que fará verso bom um Franciscano?
Cuidais, que um tonto revestido em saco
O mesmo é ser poeta, que velhaco?

Seres mestre vós na velhacaria
Vos vem por reta via
De trajar de burel essa libréia,
E o ser poeta nasce de outra veia;

Não entreis em Aganipe mais na barca,
Porque nela co'a mesma vossa alparca
Apolo tem mandado,
Que vos espanquem por desaforado.

Não sabeis, Reverendo Mariola,
Remendado de frade em salvajola,
Que cada gota, que o meu sangue pesa
Vos poderá a quintais vender nobreza?

Falais em qualidade,
Tendo nessas artérias quantidade
De sangue vil, humor meretricano,
Pois nascestes de sêmen franciscano,

E sobre vossa Mãe em tempos francos
Caíram mil tamancos,
De Sorte que não soube a sua pele,
Se vos fundiu mais este, do que aquele:

E nem vós, Frei Monturo, ou Frade Cisco,
Sabeis se filho sois de São Francisco,
Porque sois, vos prometo,
Filho do Santo não, porém seu neto.

Quem vos meteu a vós, vilão de chapa
A tomares as dores do meu mapa,
Se no mapa, que fiz não se esquadrinha
Linha tão má, como é a vossa linha?

Mas como comeis alhos,
Vos queimais, sem chegares aos burralhos;
E se acaso vos toca a putaria,
Que ali pintou a minha fantesia,

Não vos canseis em defender as putas,
Pois sendo dissolutas,
Não vos querem soldado aventureiro,
Querem, que lhe acudais com bem dinheiro;

E querem pelo menos, Frei Bolório,
Que os sobejos lhe deis do refectório,
Que as dádivas de um Frade
sobejos são da leiga caridade.

E se acaso esforçastes a ousadia
À vista de uma larga companhia,
Ides, Frei Maganão, muito enganado,
Que o capitão pretérito é passado:

Não é cousa possível,
Que vos livre de trago tão terrível;
Tornai em vós, Frei Burro, ou Frei Cavalo,
Que cair sobre vós pode o badalo

De algum celeste signo, que vos abra,
E sem dizer palavra
Vos leve em corpo, e alma algum demônio
Por mau imitador de Santo Antônio;

Confessai vossas culpas, Frei Monturo,
Que anda a morte de ronda pelo muro,
E se na esfera vos topar a puta,
Vos heis de achar no inferno a pata enxuta.

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