Por Gregório de Matos (1696)
6
Não heis de então requerer,
e muito menos gritar,
pois por gritos de advogar
ide-vos a padecer:
deitar pleitos a perder
a puros gritos e zurros
botar na terra sussurros,
de que sois grande Doutor
na forca vos hão de pôr
a vós, mais a vossos burros
A CERTO LETRADO QUE SENDO HOMEM DE NAÇÃO AFFECTAVA JACOBICES CORRENDO A VIA SACRA COM OS BRAÇOS ABERTOS.
Deixe, Senhor Beato, a Beati-,
Que se é via do Céu a via sa-
Ninguém o quer já crer nesta cidá-
Porque é você da casta Israeli-.
Quando devoto corre a sacra vi-
E a cada pé de cruz estende os bra-
Parece um entremez da Lei da gra-
Que a toda a cristandade causa ri-.
Deixe-se disso, e trate do escritó-
Que esse lhe dá de render o pão da me-,
E o céu também, se com bom zelo advó-.
Mas se quer, que por Santo o reconhê-
E na paixão de Deus faz o graciô-,
Embolsará as risadas da comé-.
A CERTO LETRADO FULANO COELHO, CASANDO-SE COM HUMA MOÇA, QUE SE DIZIA SER TAL COMO PUBLICA A MESMA SATYRA.
1
Este, que de Nise conto,
ouçam, que é bem raro caso,
pois dizem, calça seu vaso
(com ser tão grande) um só ponto:
casou com Fábio, que é tonto,
e eu folgo por vida minha,
porque é cousa bem sabida
que andavam com grão cuidado
o Moço por ela assado,
e ela por ele cozida.
2
Por dar alívio a seu peito
no mar de amor, lhe convinha
a Fábio passar a linha,
porém não passar o estreito:
mas não haverá conceito,
que repare a Fábio amante,
pois hoje a vela constante
(quando em deleites se arrulha)
o rumo serve de agulha
como astuto navegante.
3
Mais direito do que um fuso
Fábio com manha seleta
no vaso por linha reta
lhe encaixou o membro obtuso:
mas de dizer não me escuso,
que nisto tinha interesse,
pois caso estranho parece,
e coisa rara que Fábio
sendo Astrólogo tão sábio
o Virgo não conhecesse.
4
Andou prudente, e alentado
nesta empresa, a que aspirava
pois de Nise o vaso estava
com linhas fortificado:
avançou-o denodado,
donde claramente infiro
(não cuide alguém, que isto é conto)
que a Moça lhe pôs o ponto?
para ele fazer o tiro.
5
Em casar com Nise bela
nada Fábio se desonra,
que nisto de pontos d'honra
ninguém sabe mais do que ela:
e assim com gentil cautela
que ambos ganharam (suspeito),
a vida num mesmo efeito,
sem que pareça tolice,
com os pontos de honra Nice,
Fábio com os de direito.
6
Se Fábio ocioso alguma hora
de Nise, por ser sandeu
as linhas tristes torceu
alegre as destorce agora:
embainhe o membro embora
no vaso, pois nisto acerta;
mas é bom, que esteja alerta,
não se fira nesta bulha
porque bainha de agulha
é força, que esteja aberta.
7
Bem é, liberal se ostente
em casar-se Nise bela,
dando-se aos mais donzela
pois dando-se a muitos ela
hoje um recebe somente:
ter-me-ão por maldizente,
mas não tenho a culpa eu,
que sou mui cativo seu:
a verdade aqui só conto,
sem lhe acrescentar um ponto
dos que ela no vaso deu.
AO MESMO ASSUMPTO E AOS MESMOS SUGEYTOS SUCCEDENDOLHE O QUE DIZ.
Casou-se nesta terra esta, e aquele,
Aquele um gozo filho de cadela,
Esta uma donzelíssima donzela,
Que muito antes do parto o sabia ele.
Casaram por unir pele com pele,
E tanto se uniram, que ele com ela
Com seu mau parecer ganha para ela,
Com seu bom parecer ganha para ele.
Deram-lhe em dote muitos mil cruzados
Excelentes alfaias, bons adornos,
De que estão os seus quartos bem ornados:
Por sinal, que na porta, e seus contornos
Um dia amanheceram bem contados
Três bacios de merda, e dous de cornos.
AO MESMO LETRADO METTIDO EM AMIZADES COM O Pe. DAMASO, A QUEM PRATICAVA OS TEMPOS DA VOCACIA, SATYRISA O POETA A AMBOS.
Deu agora o Frisão em requerente
Fiado ern seu saber, e boas artes.
Será por essa via homem de partes,
E irá (se for à queima) por agente.
Má hora, que vá ele por paciente,
Sendo agente de tantos Durandartes,
Que atacando-lhe o Ventre a puros fartes,
Come-os ele, mas não lhe põe o dente.
Neste ofício se val da companhia
De um moderno, que em vez de pêlo Louro
Penteia as tranças da carneceria.
Doutor com borla de osso? mau agouro:
Adonde pode achar-se? Na Bahia,
Que de um manso Coelho faz um touro.
A MANUEL ROIZ DE FIGUEYREDO, QUE SENDO REQUERENTE SE POZ COM PRESUNÇÕES DE LETRADO, A QUEM CONCORRIA GRANDE PARTE DOS PLEYTEANTES.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Letrados. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.