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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Opúsculo de Pedro Alz. da Neyva

Por Gregório de Matos (1696)

4
Ser fidalgo na Bahia
é suma felicidade,
porque há de arder a cidade
numa, e noutra cortesia:
heis de mamar Senhoria,
quer vos dê, quer não pesar:
porque se um triste alveitar
a mama, sendo ancião,
vós tão novo, e simplalhão
como a não heis de mamar?

5
Está toda a meninice
desta terra a esperar,
que saiais a passear,
e digais muita parvoíce:
já a mim um homem me disse,
que vos ouvira umas poucas,
mas vós a palavras loucas
(se quereis lograr sossegos)
heis de trazer olhos cegos,
tanto como orelhas moucas.

6
Chegais de Lisboa enfim,
e não quero de vós mais,
senão só que me digais,
como vindes de escarpim:
que este povo é tão ruim,
tão jocoso, e tão burlesco,
que por vos pôr ao tudesco,
tendo vós cara de nata,
levantam, que a vossa pata
tem dedo de queijo fresco.

7
Triste da vossa parceira,
que se vos muda talvez
a cabeça para os pés,
e os pés para a cabeceira,
sempre o presunto lhe cheira,
sempre o bafo cheira mal,
e contra artifício tal,
como lhe não dais proveito
fedendo a torto, e a direito,
vos admite ao natural.

8
Ela levada do amor
diz (porque enfim vos quer bem)
bom sangue o Fidalgo tem,
mas tem mui velhaco humor:
vós obrigado ao primor,
de quem tão firme vos ama,
que em tal caçoula se inflama,
ficais por sentença dada
vós apertando a privada,
ela apartada da cama.

9
Tratais a este e a aquele
por ele de puro honrado,
que o Senhor bem inclinado
em lugar de um vós dá um ele:
mas que o chantre se desvele
em visitar-vos cada hora,
e lhe digais, venha embora
Chantre, folga de o ver bom,
isso é ser sem tom, nem som
asneirão de foz em fora.

10
Que dissestes me constou,
a um Capitão de alto som,
folgo muito de o ver bom,
e ele os olhos vos fincou:
de boa então escapou,
Pedro, o vosso cabeção,
porque se vos lança a mão,
creio eu, é para crer,
vos havia de dizer,
folgo de o ver asneirão.

11
Diz ele, que em caso tal
outra tal vos respondera,
e mãos, e pés vos pusera
a não vir o General:
vós, Pedro, não fazeis mal,
porque sois enfim fidalgo,
mas sejais algo, o no algo,
têm todos por certo agouro,
que se vos foram ao couro,
heis de correr como um galgo.

12
Temo, vos há de matar
este mal de fidalguia,
por falta de uma sangria,
que ninguém vos manda dar:
importa logo sangrar,
e carregar sobre tudo,
porque o sangue linhajudo
fora da imaginação
fará que fiqueis vilão,
mas heis de ficar sisudo.

DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS NEYVAS NA FAXADA: E IMPACIENTE O POETA DO DESAFORO ROMPE NESTAS QUEIXAS.

1
Digam, os que argumentaram,
qual mais desaforo indica,
quem as conclusões dedica,
ou a quem se dedicaram:
se as torres, que lhe gravaram
com tanta magnificência
não são da sua ascendência,
posto que dos Neivas são,
concedo-lhe a conclusão,
mas nego-lhe a conseqüência.

2
Concedo, que aquele escudo
com gravados torreões
seja dos Neivas brasões,
mas não de um Neiva orelhudo:
que homem pode haver sisudo,
que vendo aquele jumento
não conclua o argumento,
de que os seus timbres, e duelos
não são torres, são castelos,
porém castelos de vento.

3
A um cavalheiro vilão
estas armas lhe hão de dar,
sobre escudo verde-mar
uma aguilhada, e um podão:
item porque lá em Milão
morando na casa alheia
foi Lacaio de libréia,
passa-aqui de rocinante,
lhe dão em campo brilhante
uma almofaça, e uma peia.

4
Pelo torreão guerreiro
dão-lhe em jurídica forma,
na praia uma plaraforma,
onde seja aguardenteiro:
e porque vai a escudeiro
por casar co'a Indiana
com dote de porcelana,
e enxoval de canequim,
lhe dão por armas enfim
um chuço, uma partasana.

5
Desaforo tão insano
sofrerão outras nações,
que dedique as conclusões
um magano a outro magano?
que sendo costume lhano
oferecer, e dedicar
ao Prelado, ao Titular,
ao Príncipe, ao Monarca,
se veja uma suja alparca
em tão subido espaldar?

6
Mas enfim, que lhe importou
ver-se assim entronizado,
se tão vil é o dedicado,
como quem lhe dedicou?
tudo o diabo levou,
a honra, a dedicatória
a honra tornou-se escória,
a dedicatória em mijo:
o Brasil se ri de riso,
aqui paz, e depois glória.

AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE HUM DECRETO, QUE VEYO DE SUA MAJESTADE AO DEZ.OR. ANTONIO RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM HABITOS, E FOROS FALSOS.

(continua...)

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