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#Sermões#Retórica

Sermão do Nascimento da Virgem Maria

Por Padre Antônio Vieira (1657)

Não cuideis que digo injúrias ao Sol Encarnado, que assim quis Ele que fosse. Aparece no mundo o sol encarnado, Cristo, e que olhos o viram nascido? Olhos de homens e olhos de animais. Para o verem nascido olhos de animais, ele mesmo foi buscar os animais a um presépio, e para o verem nascido olhos de homens, ele os mandou buscar por uma estrela entre os reis, e por um anjo entre os pastares. Os homens, pelo pecado, estavam convertidos em animais:

Homo, cum in honore esset non intellexit; comparatus est jumentis9. Por isso se mostra o sol nascido aos olhos dos homens e dos animais porque nascia para fazer de animais homens. Porém a luz, como nascia para Mãe de Deus, oculta-se a todos os olhos criados, e só nasce manifesta aos divinos: Vidit Deus lucem. Os olhos de Deus foram os que festejaram o nascimento desta soberana luz, e festejaram-na aqueles três dias em que não houve sol, nem outros olhos, porque tomau cada pessoa da Santíssima Trindade um dia da festa por sua conta: Ipse est enim lux, quae primam distinxit dierum nostrorum trinitatem, disse S. Dionisio Areopagita10. Os olhos do Padre festejaram o nascimento da luz o primeiro dia: Et vidit Deus luceni, quod esset bona: E viu Deus Padre que a luz era boa para filha. Os olhos do Filho festejaram o nascimento da luz o segundo dia: Et vidit Deus lucein, quod esset bona: E viu Deus Filho que a luz era boa para Mãe. Os olhos do Espírito Santo festejaram o nascimento da luz o terceiro dia: Et vidit Deus lucem quod esset bona: E viu Deus Espírito Santo que a luz era boa para Esposa. Assim festejou toda a Santíssima Trindade o nascimento daquela soberana luz, e assim o devemos festejar nós. Ponde os olhos, cristãos, naquela luz, e pedi-lhe que os ponha em vós e vereis como é boa para tudo: Vidit lucem quo desset bona. Boa para a consolação, se estiveres afligido; boa para o remédio, se estiveres necessitado; boa para a saúde, se estiveres enfermo; boa para a vitória, se estiveres tentado; e se estiveres caído e fora da graça de Deus, boa, e só ela boa, para vos conciliar com Ele. Tão cheia de privilégios de Deus nasce hoje esta luz de quem Ele há de nascer! De qua natus est Jesus.

IV

Segunda razão: a luz é mais benigna que o sol. O sol e a nuvem que guiava os filhos de Israel pelo deserto. Os rigores do sol da justiça e as benignidades da luz. O nascimento de Maria é a passagem do sol do signo do Leão para o signo da Virgem. Maria e a sarça ardente do deserto. S. João, o novo signa celeste e a humanização do sol.

O segundo título por que se deve mais festejar o dia deste nascimento é por ser a luz mais benigna. É a luz mais benigna que o sol, porque o sol alumia, mas abrasa; a luz alumia e não ofende. Quereis ver a diferença da luz ao sol? Olhai para o mesmo sol e para a mesma luz de que ele nasce, a aurora. A aurora é o riso do céu, a alegria dos campos, a respiração das flores, a harmonia das aves, a vida e alento do mundo. Começa a sair e a crescer o sol, eis o gesto agradável do mundo e a composição da mesma natureza toda mudada. O céu acende-se, os campos secam-se, as flores murcham-se, as aves emudecem, os animais buscam as covas, os homens as sombras. E se Deus não cortara a carreira ao sol, com a interposição da noite, fervera e abrasara-se a terra, arderam as plantas, secaram-se os rios, sumiram-se as fontes, e foram verdadeiros e não fabulosos os incêndios de Faetonte. A razão natural desta diferença é porque o sol, como dizem os filósofos, ou verdadeiramente é fogo, ou de natureza mui semelhante ao fogo, elemento terrível, bravo, indômito, abrasador, executivo, e consumidor de tudo. Pelo contrário, a luz em sua pureza, é uma qualidade branda, suave, amiga, enfim, criada para companheira e instrumento da vista, sem ofensa dos olhos, que são em toda a organização do corpo humano a parte mais humana, mais delicada e mais mimosa. Filósofos houve que pela sutileza e facilidade da luz, chegaram a cuidar que era espírito e não corpo. Mas porque a filosofia humana ainda não tem alcançado perfeitamente a diferença da luz ao sol, valhamo-nos da ciência dos anjos.

Aquele anjo visível que guiava os filhos de Israel pelo deserto, diz o texto, que marchava com duas colunas de prodigiosa grandeza, uma de nuvem de dia, e outra de fogo de noite: Per diem in columna nubis, per noctem in columna ignis (Êx. 13,21). E por que e para que levava o anjo estas duas colunas de nuvem e fogo? A de nuvem, para reparo do sol, a de fogo, para continuação da luz. Tanto que anoitecia, acendia o anjo a coluna de fogo sobre os arraiais, para que tivessem sempre luz. E tanto que amanhecia, atravessava o anjo a coluna de nuvem, para que ficassem reparados e defendidos do sol. De maneira que todo o cuidado do anjo sobre os seus encomendados consistia em dois pontos: o primeiro, que nunca lhes tocasse o sol; o segundo, que nunca lhes faltasse a luz. Tão benignas qualidades reconhecia o anjo na luz, e tão rigorosas no sol.



(continua...)

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