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#Contos#Literatura Brasileira

Um para o outro

Por Machado de Assis (1879)

Vulgar é o episódio, simples é o sentimento; nada aí há que mereça uma página de novela, nem que se imprima fortemente no espírito; mas simples, mas vulgar, a vida dessas poucas horas entre o jantar e o sono deu a Henriqueta uma série de reflexões graves. A idéia de se ter mostrado ofendida com o irmão roeu-lhe cruelmente a consciência. Não esqueçamos que Henriqueta possuía a docilidade entre as suas mais excelentes virtudes. Por que motivo aquele arremesso e aquela injustiça, onde não houvera ofensa nenhuma? A esta pergunta, que a si mesma fazia, Henriqueta não achou que responder, — ou antes não quis achá-lo, porque uma vaga recordação lhe alvejou no pensamento, e ela repeliu-a irritada e envergonhada.

Já então era tarde; toda a família dormia. Sentada ao pé de uma janela aberta, com os olhos ao longe, no eterno impenetrável, Henriqueta relembrava, não só as últimas horas, como os últimos dias, como as últimas semanas; fazia uma espécie de exame de consciência, sem argüições nem desculpas, mas friamente, como quem julga a outrem. Talvez a imagem do pai lhe aparecesse nessa ocasião; pode ser também que lhe ouvisse a voz; mas se lhe respondeu, não falou com os lábios, mas com o coração, e foram de paz as palavras, porque de paz lhe foi o sono.

— Passou a dor de cabeça? perguntou-lhe a tia no dia seguinte de manhã, quando Henriqueta lhe foi falar.

— Para sempre, foi a sua resposta.

V

Para sempre? dirá consigo a leitora, que de certo entendeu a dor de cabeça de Henriqueta, e provavelmente duvidara da cura. Velhas dores, eternas dores, que tu sentiste, ou sentes, ou virás a sentir um dia — o que já mostravam aqueles dois versinhos que Voltaire aplicou ao amor. Quem quer que sejas — dizia — teu senhor é este. II est, le fut ou le doit être. É o teu caso, morena ou loura que me lês, foi o caso de tua avó, era o da nossa Henriqueta; e é por isso que a leitora tem muita razão de duvidar que tão cedo lhe morresse a dor — ou ao menos, que morresse para sempre.

Não obstante, foi o que ela disse, e mostrou galhardamente em todo esse dia e nos outros. Voltara a alegria habitual — a princípio nimio ruidosa, como se a assoprasse um pouco de oculto propósito, mas logo depois natural e sincera. Uma nuvem apenas — pesada, mas nuvem, e já agora extinta.

Um dia, seis ou sete depois daquele incidente, foi convidado o Pimentel a jantar em casa de Julião; lá foi, lá o receberam com as mais sensíveis mostras de afeto, e não houve outro caminho de intimidade. A intimidade que vem só do costume é frouxa e facilmente suspeitosa; a que se funda na afeição recíproca é menos precária. Era o caso dos dois rapazes: não tardou muito que se mostrassem quais eram e quais desejariam que fossem.

Entretanto, o Pimentel devia voltar para o Norte: transferiu muitas vezes a viagem, mas afinal era preciso realizá-la, e não teve outro remédio se não ir — sabe Deus com que saudade! disse ele a Julião.

— Por que não fica mais tempo?

— Não posso; há razões de família; em todo o caso, voltarei.

— Quando?

— Depois de alguns meses.

— Vinte ou trinta, não?

— Oh! Não! Três ou quatro.

— Promete?

— Prometo.

Henriqueta recebeu a notícia de outro modo — uma grande tranqüilidade, quase indiferença; e realmente seria bem curioso, quem pretendesse saber as causas do ar sombrio com que Pimentel viu a impressão que deixava à moça o motivo de sua partida. O mais que se pode saber é que não disse nada: boliu com a corrente do relógio, consertou a gravata, depois olhou para a ponta da botina; depois quis dizer alguma coisa, mas provavelmente esquecera as palavras, e achou melhor sair, e foi o que fez daí a dois minutos.

Ora, é bem difícil que um homem se contente com a indiferença alheia em coisas que parecem importar-lhe grandemente; por esse ou por outro motivo, o Pimentel tornou à conversação, na véspera da partida, acrescentando que ia acabrunhado.

— Por quê? disse Henriqueta.

— A Corte sempre deixa saudades, ponderou ele.

— Isso é verdade; mas o senhor voltará daqui a algum tempo; creio que já me falou em quatro meses.

— Quatro ou três.

— Quase que era melhor não ir.

— Se pudesse ficar, ficava, disse vivamente o Pimentel; mas há razões fortes....

— Quatro meses passam-se depressa.

— Conforme, disse o Pimentel olhando para ela...

Henriqueta não respondeu nada, nem com a boca, nem com os olhos; falou do último espetáculo, depois do enjôo do mar, do calor, e de Petrópolis. O Pimentel acompanhou a por esse caminho; quis depois tornar ao primeiro, que era para ele a estrada real; ela porém fugiu-lhe. Não insistiu o Pimentel; tratou de coisas estranhas, e procurou até coisas alegres; mas só as achou de uma alegria violenta, como o cômico dos atores sem graça. De noite, entrando no hotel, tirou essa máscara do rosto, e a sós consigo recapitulou as últimas horas, os últimos dias e as últimas semanas. Digo que recapitulou, sem dizer primeiro que se despiu, porque assim mesmo como estava, assim se atirou a um sofá, com o chapéu na cabeça, e os olhos em nenhuma parte, ou longe dali. A expressão do rosto era de abatimento, de despeito, de ânsia; coisa que ainda mais se acentuou, quando ele lançando fora o chapéu, disse em voz alta e rude:

— Perco o meu tempo! não me ama.

Julião foi acompanhá-lo a bordo no dia seguinte; pediu-lhe muito que voltasse e o mais cedo possível.

— Lembre-se que já me prometeu.

— Já.

— E cumpre?

(continua...)

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