Por Machado de Assis (1876)
— Quer saber se também suponho que o nosso satélite seja habitado?
— Qual! são devaneios, são conjecturas... A lua, meu rico vizinho, não existe, a lua é uma hipótese, uma ilusão dos sentidos, um simples produto da retina dos nossos olhos. É isto que a ciência ainda não disse; é isto o que convém proclamar ao mundo. Em certos dias do mês, o olho humano padece uma contração nervosa que produz o fenômeno lunar. Nessas ocasiões, ele supõe que vê no espaço um círculo redondo, branco e luminoso; o círculo está nos próprios olhos do homem.
— Pode ser.
— Nem é outra coisa.
— Donde se conclui que todos somos lunáticos, aventurei eu galhofeiramente.
— Talvez, redagüiu, ele, rindo muito.
Depois de rir, caiu na rede; as pernas, que andavam à larga nas calças, aliás estreitas, cruzavam-se à maneira oriental, e ele ficou sentado defronte de mim.
— Lunáticos! repetiu ele.
— Dada a sua teoria, expliquei eu.
— Teoria de lunático?
— Perdão.
Já me não ouvia; com os dedos no ar fazia figuras extravagantes, retas, curvas, ângulos e triângulos, rindo à toa, com o riso pálido e sem expressão dos mentecaptos. Não havia dúvida; era uma alma sem consciência. Arrependi-me de alguma coisa que disse menos pensada, e procurei ao mesmo tempo um meio de sair dali sem o irritar. Não me foi difícil; três vezes me despedi, sem que ele me respondesse; saí sem objeção.
Chegando ao meu aposento, senti alguma coisa semelhante ao prazer de um homem que foge de um perigo ou a um incidente desagradável. Efetivamente a conversa de um homem sem juízo não era segura. Eu cuidava ter diante de mim um espírito original; saía-me um louco; o interesse diminuía ou mudava de natureza. Determinei acabar ali as minhas relações com Damasceno.
Durante quinze dias encontrei-o duas vezes, na escada; cumprimentou-me e falou-me como se tivera intactas todas as molas do cérebro. Queixou-se-me apenas de alguma dor de cabeça e palpitações do coração.
— Temo que isto vá a acabar, disse ele a segunda vez.
— Não diga isso!
— Verá; estou à beira da eternidade; vou dar o salto mortal.
Não alimentei a conversa e saí. Nessa noite contou-me o pajem que Damasceno Rodrigues me procurara com muitas instâncias dizendo que desejava confiar-me um segredo. Era provavelmente alguma nova fantasia semelhante à de Jonas e à da lua, e eu não queria animar os desvarios de um pobre velho. Não lhe mandei dizer que estava em casa nem o procurei. Alta noite, e estando a ler, ouvi um gemido no andar de cima. Subi devagarinho, colei o ouvido à porta da sala de Damasceno, mas nada mais ouvi.
Soube no dia seguinte que Damasceno adoecera. Fui vê-lo pela volta do meio-dia. Como ele nunca fechava a porta, não foi preciso incomodá-lo, para lá entrar. Achei-o deitado na cama, com os olhos cerrados e os braços estendidos ao longo do corpo e por fora da coberta. Abriu os olhos, e sorriu ao ver-me.
— Que tem? perguntei.
— Uma opressão no peito.
— Tomou alguma coisa?
— Que me fizesse mal?
— Não; algum remédio.
— Não tomei nada.
— Bem; é preciso ver o que isso é; vou mandar vir um médico. Damasceno tinha os olhos cravados na parede; não me respondeu. Ia sair, para dar ordens ao meu criado, quando vi o enfermo sentar-se na cama, e olhando para a parede que lhe ficava ao lado dos pés, clamar aflito: — Não! ainda não! Vai-te! Depois, daqui a um ano!... a dois... a três... Vai-te, Lucinda! Deixa-me!
Corri a Damasceno, falei-lhe, apalpei-lhe a testa, que estava quente, e obriguei-o a deitar-se. Uma vez deitado, ficou arquejante, a olhar para a sala, sem querer dirigir os olhos para os pés da cama.
— O que é que sente? perguntei.
Não disse nada; talvez me não ouvisse. Saí para mandar chamar um médico, e voltei ao quarto do enfermo. Estava dormindo. O médico veio, examinou-o, interrogou-o, receitou enfim alguma coisa, que imediatamente mandei preparar na mais próxima botica. Mandei a uma casa da vizinhança arranjar caldos e galinha; finalmente dispus-me a não sair de casa nesse dia.
Não contava com o amor; duas linhas escritas em uma folha de papel bordado, como se usava no meu tempo, vieram mudar a resolução em que eu assentara. Saí, depois de fazer muitas recomendações ao criado e prometendo voltar cedo. Às oito horas da noite achava-me em casa; fui ter logo com o doente. Achei-o sossegado.
— Entre, entre, meu amigo, disse ele; deixe-me chamar-lhe assim, porque não tenho ninguém mais a quem dê esse doce nome.
— Está melhor?
— Estou; mas são melhoras passageiras.
— Não diga isso.
— São. Isso há de acabar cedo. Sabe o que é a morte?
— Imagino.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Sem olhos. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876.