Por Machado de Assis (1876)
— Meu amo há de desculpar-me... Aqui há tempos uns amigos convidaram-me para uma ceia. Eu nunca ceio porque me faz mal; mas essa noite tive vontade de cear. Havia uma galinha...
Gustavo impaciente bateu com o pé no chão.
— Acaba! disse ele.
— Havia uma galinha, mas não havia vinho. Era preciso vinho. Além do vinho, houve quem lembrasse um paio, comida indigesta, como meu amo sabe...
— Mas o paletó?
— Lá vou. Faltava, portanto, algum dinheiro. Eu, esquecendo por um instante os benefícios que recebera de meu amo e sem reparar que uma lembrança daquelas guarda-se para sempre...
— Acaba, demônio!
— Vendi o paletó!
Gustavo deixou-se cair na cadeira.
— Valia a pena fazer-me perder tanto tempo, disse ele, para chegar a esta conclusão! Estou quase certo de que a fita estava no bolso desse paletó!...
— Mas, meu amo, aventurou João, não será a mesma coisa comprar outra fita? — Vai-te para o diabo!
— Demais, nem tudo está perdido.
— Como assim?
— Talvez o homem ainda não vendesse o paletó.
— Que homem?
— O homem do Pobre Jaques.
— Sim?
— Pode ser.
Gustavo refletiu um instante.
— Vamos lá! disse ele.
Gustavo vestiu-se no curto prazo de 7 minutos; saiu acompanhado do criado e a trote largo caminharam para a Rua da Carioca.
Entraram na casa do Pobre Jaques.
Acharam um velho assentado numa cadeira examinando um par de calças que lhe levara o freguês talvez para almoçar nesse dia. O dono da casa oferecia-lhe pelo objeto cinco patacas; o dono do objeto instava por mil e oitocentos. Afinal cortaram a dúvida, diminuindo o freguês um tostão e subindo o dono da casa outro tostão.
Acabado o negócio, o velho atendeu aos dois visitantes, um dos quais, de impaciente andava de um lado para outro, a passear os olhos nas roupas com a esperança de encontrar o suspirado paletó.
João era conhecido do velho e tomou a palavra.
— Não se lembra de um paletó que eu lhe vendi há coisa de três semanas? disse ele.
— Três semanas!
— Sim, um paletó.
— Um paletó?
Gustavo fez um gesto de impaciência. O velho não reparou no gesto. Pôs-se a afagar o queixo com a mão esquerda e os olhos no chão a ver se lembrava do destino que tivera o paletó introuvable.
— Lembra-me de que lhe comprei um paletó, disse ele, e por sinal que tinha gola de veludo...
— Isso! exclamou Gustavo.
— Mas creio que o vendi, concluiu o velho.
— A quem? perguntou Gustavo desejoso e ansioso ao mesmo tempo de lhe ouvir a resposta.
Antes porém que a ouvisse, ocorreu-lhe que o velho podia desconfiar do interesse com que procurava saber de um paletó velho, e julgou necessário explicar que não se tratava de nenhuma carteira, mas de uma lembrança de namorada.
— Seja lá o que for, disse o velho sorrindo, eu nada tenho com isso... Agora me lembro a quem vendi o paletó.
— Ah!
— Foi ao João Gomes.
— Que João Gomes? perguntou o criado.
— O dono da casa de pasto que fica ali quase no fim da rua...
O criado estendeu a mão ao velho e murmurou algumas palavras de agradecimento; quando porém voltou os olhos, não viu o amo, que apressadamente se dirigia na direção indicada.
CAPÍTULO V
João Gomes animava os caixeiros e a casa regurgitava de gente que comia o seu modesto almoço. O criado do bacharel conhecia o dono da casa de pasto. Foi direito a ele.
— Sr. João Gomes...
— Olé! você por aqui!
— É verdade; venho tratar de um assunto importante.
— Importante?
— Muito importante.
— Fale, respondeu João Gomes entre receoso e curioso.
Ao mesmo tempo lançou um olhar desconfiado para Gustavo que se conservara de parte.
— Não comprou o senhor um paletó em casa do Pobre Jaques?
— Não, senhor, respondeu muito depressa o interpelado.
Era evidente que receava alguma complicação de polícia. Gustavo compreendeu a situação e interveio para sossegar o ânimo do homem.
— Não se trata de nada que seja grave para o senhor, nem para ninguém exceto para mim, disse Gustavo.
E contou o mais sumariamente que pôde o caso da fita, o que tranqüilizou efetivamente o espírito do comprador do paletó.
— Uma fita azul, diz V. Sr.ª? perguntou João Gomes.
— Sim, uma fita azul.
— Achei-a na algibeira do paletó e...
— Ah!
— Tinha dois nomes bordados, creio eu...
— Isso.
— Obra muito fina!
— Sim, senhor, e então?
— Então? Ora, espere... Eu tive esta fita alguns dias comigo... até que um dia... de manhã... não, não era de manhã, era de tarde... mostrei-a a um freguês...
Estacou o Sr. João Gomes.
— Que mais? perguntou o criado do bacharel.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.