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#Contos#Literatura Brasileira

Tempo de crise

Por Machado de Assis (1873)

— Por quê?

— Que força moral deve ter um ministério já demitido e ocupando as pastas?

— Realmente, a coisa é singular; mas eu ouvi ao primo do Ministro da Fazenda.

Ferreira tinha a particularidade de andar informado pelos parentes dos ministros; pelo menos, assim o dizia.

— Quem será chamado?

— Naturalmente o N.

— Ou o P.

— Já hoje de manhã se dizia que era o K.

Entrou o Mendonça; o caixeiro deu-lhe uma cadeira, e ele sentou-se ao lado do Lima, que nesse momento descalçava as luvas, ao mesmo tempo que o desembargador oferecia rapé aos circunstantes.

— Então, Sr. Mendonça, quem é o chamado? perguntou o desembargador.

— O B.

— Com certeza?

— É o que se diz.

— Eu ouvi que só na segunda-feira se organizará ministério novo.

— Qual! insistiu Mendonça; afirmo-lhe que o B. foi ao paço.

— Viu-o?

— Não, mas disseram-mo.

— Pois acredite que até segunda-feira...

A conversa ia-me interessando; eu já tinha esquecido o interesse que ligava à mudança dos ministros, para atender simplesmente ao que se passava diante de mim. Não imaginas o que é formar um ministério na rua antes que ele esteja formado no paço.

Cada qual expôs a sua conjetura; vários nomes foram lembrados para o poder. Às vezes aparecia um nome contra o qual se apresentavam objeções; então replicava o autor da combinação:

— Está enganado; pode o F. ficar com a pasta da Justiça, o M. com a da Guerra, K. Marinha, T. Obras Públicas, V. Fazenda, X. Império, e C. Estrangeiros.

— Não é possível; o V. é que deve ficar com a pasta de Estrangeiros.

— Mas o V. não pode entrar nessa combinação.

— Por quê?

— É inimigo do F.

— Sim; mas a deputação da Bahia?

Aqui coçava o outro a orelha.

— A deputação da Bahia, respondia ele, pode ficar bem metendo o N.

— O N. não aceita.

— Por quê?

— Não quer ministério de transição.

— Chama a isto ministério de transição?

— Pois que é mais?

Este diálogo em que todos tomavam parte, inclusive o C. e que era repetido sempre que um dos circunstantes apresentava uma combinação nova, foi interrompido pela chegada de um deputado.

Desta vez íamos ter notícias frescas.

Efetivamente soubemos pelo deputado que o V. tinha sido chamado ao paço e estava organizando gabinete.

— Que dizia eu? exclamou Ferreira. Nem era de ver outra coisa. A situação é do V.; o seu último discurso foi o que os franceses chamam discurso-ministro. Quem são os outros?

— Por ora, disse o deputado, só há dois ministros na lista: o da Justiça e o do Império.

— Quem são?

— Não sei, respondeu o deputado.

Não me foi difícil ver que o homem sabia, mas era obrigado a guardar segredo. Compreendi que aquele é que lambia os vidros por dentro, expressão muito usada em tempo de crise.

Houve um pequeno silêncio. Conjeturei que cada qual estivesse a adivinhar quem seriam os nomeados; mas, se alguém os descobriu, não os nomeou.

O Abreu dirigiu-se ao deputado.

— V. Ex.a acredita que o ministério fique organizado hoje?

— Creio que sim; mas daí pode ser que não...

— A situação não é boa, observou Ferreira.

— Admira-me que V. Ex.a não seja convidado...

Estas palavras, naquela ocasião inconvenientes, foram pronunciadas pelo Lima, que trata a política como trata as mulheres e os cavalos. Cada um de nós procurou disfarçar o efeito de semelhante tolice, mas o deputado respondeu direitamente à pergunta:

— Pois não me admira nada disso; deixo o lugar aos componentes. Estou pronto a servir como soldado... Não passo disso.

— Perdão, é muito digno!

Entrou um homem esbaforido. Fiquei surpreso. Era um deputado. Olhou para todos, e dando com os olhos no colega, disse:

— Podes dar-me uma palavra?

— Que é? perguntou o deputado levantando-se.

— Vem cá.

Foram até à porta, depois despediram-se de nós e seguiram apressadamente para cima.

— Estão ambos ministros, exclamou Ferreira.

— Acredita? perguntei eu.

— Sem dúvida.

Mendonça foi da mesma opinião; e foi a primeira vez que o vi adotar uma opinião alheia.

Eram duas horas da tarde quando saíram os dois deputados. Ansiosos por saber mais notícias, saímos todos e descemos a rua vagarosamente. Grupos de quatro e cinco se entretinham com o assunto do dia. Parávamos; combinávamos as versões; mas não retificavam as dos outros. Um desses grupos já estavam os três ministros nomeados; outro acrescentava os nomes dos dois deputados, pela única razão de os ter visto entrar num carro.

Às três horas já corriam versões de todo o gabinete, mas era tudo vago.

(continua...)

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