Por Eça de Queirós (1940)
A season – os três meses elegantes e aristocráticos de Londres – começa lentamente a organizar-se. Ordinariamente, a aristocracia inglesa, depois da Páscoa, vai a Paris: o príncipe de Gales é o primeiro. Passou-se o Inverno no campo, nos castelos, na caça, e antes do encontro oficial em Londres, vai-se respirar a Paris uma larga golfada de civilização: vê-se o último tom das toilettes, os cortes da Primavera na Lafferrière e no Worth, folheia-se o último livro de Goncourt, faz-se uma passagem nos salões do Eliseu, vê-se a novidade da Páscoa na
Comédie Française, vai-se ao Café Anglais e à Maison d’Or, à vontade, de chapéu, o que é para uma lady inglesa uma adorável extravagância, e volta-se à representação pesada e solene de Londres. O tempo, porém, tem estado áspero, havendo frio, com o vento do sudoeste que tem um gume gelado, e o Hyde Park tem ainda a parda tristeza da sua solidão de Inverno. A great attraction desta season será, parece, Orleans Club. É um clube de campo: está à beira do Tamisa, numa paisagem amável, nas verduras de um vasto parque. Era uma propriedade do duque de Aumale. Os prazeres do clube serão piquenique no campo, tiro aos pombos, pescas, pólo, críquete, almoços na relva, bailes de musselina, soirées no parque, etc. Todos os dias dois four-in-hand, conduzidos por membros do clube, levarão a Orleans House os sócios e as convidadas, porque uma feição delicada de Orleans Club é que será também um clube feminino, o que lhe trará inevitavelmente, por um tempo, o encanto e, mais tarde, a ruma.
Um outro clube original está em via de organização. E o clube dos torneios. Este deverá ter uma casa ao pé do Hyde Park, onde às cinco horas se serve o chá às senhoras, entre o campo: o fim principal deste clube será formar torneios e caçadas ao falcão. Faz ligeiramente sorrir o programa gótico e feudal deste clube londrino. A caça ao falcão pode conceber-se desde que se vistam os criados com as cores usadas na partida dos pajens do século XIV, se lhes borde no peito, sobre a seda, os escudos de armas e se lhes deixem crescer os cabelos louros em anéis. Assim poderão levantar no punho o carrancudo falcão com o seu capacete de pele de búfalo e a caça pode ter um aspecto suportavelmente feudal. Mas um torneio! Negociantes da City e banqueiros de capacete e armadura, dando-se golpes de montante, numa quinta particular, ao pé da estação de caminho de ferro! Singular diversão! O último torneio que houve em Inglaterra foi há trinta anos no Castelo de Egliton. Tinha sido aclamada rainha da beleza legendária Lady Seymoun. As festas foram esplêndidas. Ficaram célebres as pessoas do elegante marquês de Londonderry. Houve um episódio. Um homem baixo e grosso, de nariz espesso e fortes bigodes, todo coberto de uma armadura aparatosa, caiu na arena, estatelado, esperneando; levantaram-no e sacudiram-no; estava são, só um pouco humilhado: damas e cavaleiros riram; era um estrangeiro, sem grande importância: quatro anos depois era imperador dos Franceses!
Uma curiosidade de Londres – foi o desafio a andar entre o célebre caminhador O’Leary e o seu rival Welton. O desafio foi em Albert Hall e durou seis dias – durante esse tempo, os andarilhos tiveram apenas algumas horas de descanso! O’Leary ganhou, tendo andado quinhentas e vinte milhas; Welton perdeu por dez milhas. O’Leary caminhava com os cotovelos apertados aos rins, calado, olhar direito, tendo agarrado em cada mão, com uma força convulsiva, uma varinha. Welton caminhava bamboleando-se, falando, com um chicote numa das mãos, a outra à cinta – e para se excitar fez-se tocar constantemente à banda alemã de instrumentos de metal uma marcha estridente. Trinta mil pessoas assistiram sucessivamente a este singular desafio. O que se provou? Incontestavelmente que a constituição humana tem um prodigioso poder de resistência, e que esta máquina de carne e ossos não é inferior às de Birmingham. Mas o que é estranho é que no tempo dos caminhos de ferro – se exerça essa preciosa força de resistência, numa arte inútil, obsoleta, quase bárbaras marchas!
O grande teatro da Alhambra representa uma peça fantástica, cortada de bailados, que tem, em Inglaterra, uma singular qualidade – e imoral! É a primeira vez que vejo num palco inglês o amante idealizado e o marido apupado! Milhares de pessoas vão sucessivamente saborear aquele escandalozinho gigante. Vejam a censura inglesa! Admite esta farsa impudente, povoada de mulheres quase nuas, e recusa a Dama das Camélias! Mas é que em Inglaterra não existe censura; Lord Chambellan, um velho caturra de outras idades, excêntrico e variável, é a censura. Governa despoticamente do meio do seu mau humor os teatros de Londres, e com tanta inteligência que permite as farsas imorais de um rabiscador idiota – e impede a representação da obra de Dumas, da Academia Francesa!
II
Londres, 14 de Maio [de 1877]
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.