Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Ao pé da Ponte, uma rampa desce para a alameda que se estende um pouco à beira do rio. É um lugar recolhido, coberto de árvores antigas. Chamam-lhe a Alameda Velha. Ali, caminhando devagar, falando baixo, o cônego consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre ''uma idéia que ela lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!'' Amaro pedia-lhe com urgência que lhe arranjasse uma casa de aluguel, barata, bem situada, e se fosse possível mobilada; falava sobretudo de quartos numa casa de hóspedes respeitável. "Bem vê o meu caro padre-mestre, dizia Amaro, que era isto o que verdadeiramente me convinha; eu não quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria o bastante. O que é necessário é que a casa seja respeitável, sossegada, central, que a patroa tenha bom gênio e que não peça mundos e fundos; deixo tudo isto à sua prudência e capacidade, e creia que todos estes favores não cairão em terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa acomodada e de boa língua."

- Ora a minha idéia, amigo Mendes, é esta: metê-lo em casa da S. Joaneira! resumiu o cônego com um grande contentamento. É rica idéia, hem!

- Soberba idéia, disse o coadjutor com a sua voz servil.

- Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto que pode servir de escritório. Tem boa mobília, boas roupas...

- Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito.

O cônego continuou:

- É um belo negócio para a S. Joaneira: dando os quartos, roupas, comida, criada, pode muito bem pedir os seus seis tostões por dia. E depois sempre tem o pároco de casa.

- Por causa da Ameliazinha é que eu não sei - considerou timidamente o coadjutor. - Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor pároco é ainda novo... Vossa senhoria sabe o que são línguas do mundo.

O cônego tinha parado:

- Ora histórias! Então o padre Joaquim não vive debaixo das mesmas telhas com a afilhada da mãe? E o cônego Pedroso não vive com a cunhada, e uma irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezenove anos? Ora essa!

- Eu dizia... atenuou o coadjutor.

- Não, não vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos, é como se fosse uma hospedaria. Então o secretário-geral não esteve lá uns poucos de meses?

- Mas um eclesiástico... insinuou o coadjutor.

- Mais garantias, Sr. Mendes, mais garantias! exclamou o cônego. E parando, com uma atitude confidencial: - E depois a mim é que me convinha, Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo!

Houve um pequeno silêncio. O coadjutor disse, baixando a voz:

- Sim, vossa senhoria faz muito bem à S. Joaneira...

- Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que posso, disse o cônego. E com uma entonação terna, risonhamente paternal: - que ela é merecedora! é merecedora. Boa até ali, meu amigo! - Parou, esgazeando os olhos: - Olhe que dia em que eu não lhe apareça pela manhã às nove em ponto, está num frenesi! Oh criatura! digo-lhe eu, a senhora rala-se sem razão. Mas então, é aquilo! Pois quando eu tive a cólica o ano passado! Emagreceu, Sr. Mendes! E depois não há lembrança que não tenha! Agora, pela matança do porco, o melhor do animal é para o padre santo, você sabe? é como ela me chama.

Falava com os olhos luzidos, uma satisfação babosa.

- Ah, Mendes! acrescentou, é uma rica mulher!

- E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente.

- Lá isso! exclamou o cônego parando outra vez. Lá isso! Bem conservada até ali! Pois olhe que não é uma criança! Mas nem um cabelo branco, nem um, nem um só! E então que cor de pele! - E mais baixo, com um sorriso guloso: - E isto aqui! ó Mendes, e isto aqui! - Indicava o lado do pescoço debaixo do queixo, passando-lhe devagar por cima a sua mão papuda: - É uma perfeição! E depois mulher de asseio, muitíssimo asseio! E que lembrançazinhas! Não há dia que me não mande o seu presente! é o covilhete de geléia, é o pratinho de arroz-doce, é a bela morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de maçã. Ora havia de você ver aquilo! A maçã parecia um creme! Até a mana Josefa disse: "Está tão boa que parece que foi cozida em água benta!" - E pondo a mão espalmada sobre o peito: - São coisas que tocam a gente cá por dentro, Mendes! Não, não é lá por dizer, mas não há outra.

O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.

- Eu bem sei, disse o cônego parando de novo e tirando lentamente as palavras, eu bem sei que por ai rosnam, rosnam... Pois é uma grandíssima calúnia! O que é, é que eu tenho muito apego àquela gente. Já o tinha em tempo do marido. Você bem o sabe, Mendes.

O coadjutor teve um gesto afirmativo.

- A S. Joaneira é uma pessoa de bem! olhe que é uma pessoa de bem, Mendes! exclamava o cônego batendo no chão fortemente com a ponteira do guarda. sol.

- As línguas do mundo são venenosas, senhor cônego, disse o coadjutor com uma voz chorosa. E depois dum silêncio, acrescentou baixo: - Mas aquilo a vossa senhoria deve-lhe sair caro!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →