Por Camilo Castelo Branco (1889)
A família que ocupava o camarote compunha-se de muitas pessoas, sem tipo, vulgaríssimas, e prosaicas de mais para captarem a atenção de um leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava aí uma mulher que valia um mundo, ou coisa maio que o mundo — o coração de um poeta.
As rosas purpurinas dos vinte anos tinham-lhe sido crestadas pelo hálito abrasado dos salões. A placidez extemporânea de uma vida agitada via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade de um sexo que não pode acompanhar com a matéria as evoluções desenfreadas do espírito. Mas que olhos ! Mas que vida ! Que eletricidade no frenesi daquelas feições ! Que projeção de uma sombra azulada lhe descia das pálpebras ! Era uma mulher em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.
O dominó-veludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.
Seria Laura ? É certo que ela estremeceu, e recuou a mão repentinamente como se uma víbora lha tivesse mordido.
Aquela palavra simbolizava um mistério dilacerante : era a senha de uma grande luta em que a pobre senhora devia sair escorrendo sangue.
— “Laura,” - repetiu o dominó - “não me apertas a mão ? Deixa-me ao menos sentar-me perto… Muito perto de ti… Sim ?”
O homem que mais próximo estava de Laura afastou-se urbanamente para deixa aproximar uma máscara, que denunciara o sexo pela voz, e a distinção pela mão.
E Carlos nunca mas despregou os olhos daquela mulher, que revelava a cada instante um pensamento na variadas fisionomias com que queria disfarçar a sua angústia íntima.
A desconhecida fez sinal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, enleado nos embaraços naturais daquela situação toda para ele enigmática, recusava cumprir as imperiosas determinações de uma mulher que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que pareciam familiares de Laura, não deram muita importância aos dominós. Conjeturaram, primeiro, e quando supuseram que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres, que se falavam de perto como duas amigas íntimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-na por uma D. Antônia.
Laura umedecia os lábios com a língua. As surpresas pungentes produzem uma febre, e aquecem o mais belo calculado sangue-frio. A incógnita, profundamente conhecedora da situação da sua vítima, falou ao ouvido de Carlos :
— “Estuda-me aquela fisionomia. Eu não estou em circunstâncias de ser Max… Sofro demasiado para contar as pulsações deste coração. Se te sentires condoído desta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que ela.”
E voltando-se para Laura :
— “Procuro, há quatro anos, uma ocasião de prestar homenagem à tua conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem esconde à vista dos homens a sua fronte majestosa num manto de estrelas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo, não desprezarás vaidosa a homenagem de uma pobre criatura, que vem depor a teus pés o óbolo sincero da sua adoração.”
Laura não levantava os olhos do leque ; mas a mão, que o sustinha, tremia ; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos num quadro aflitivo. E o dominó continuou :
— “Foste muito feliz, minha cara amiga ! Eras digna de o ser. Colheste o fruto abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu coração de pomba !… Olha, Laura, deves dar muitas graças à Providência, que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abismo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao trono das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal ! És uma excepção a milhares de desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, cresceram em perfumes de opulência. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas da miséria, cresceste nos andrajos da indigência, ainda viste com os olhos da razão a desgraça sentada à cabeceira do teu leito… e, contudo, eis-te aí rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que podes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram !… Há tanta mulher infeliz !… Queres saber a história de uma ?…”
Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava, não tinha ainda balbuciado um monossílabo ; mas a urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder afirmativamente com um gesto.
— “Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.”
Um dos indivíduos, que estava presente, e ouvira pronunciar Laura, perguntou à mulher que assim era chamada :
— “Elisa, ela chama-te Laura ?”
— “Não, meu pai…” - respondeu Elisa, titubeando.
— “Chamo Laura, chamo… e que tem lá isso, Sr. Visconde ?” — atalhou a incógnita, com afabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida. — “É um nome de Carnaval, que passa com os dominós. Quarta-feira de cinza torna a filha de V. Exa. a chamar-se Elisa.”
O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e falando naturalmente :
CAPÍTULO III
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.