Por Camilo Castelo Branco (1862)
Leontina, dias depois, foi para o Convento da Encarnação, onde esteve dois anos e donde saiu a tomar caldas em Torres Vedras, por consenso do marido, que a foi lá visitar e de lá foi com ela à exposição à Londres. Da volta da viagem, o ourives morreu hidrópico, legando às filhas umas inscrições, que rendem para ambas um cruzado diário, e à esposa uma independência farta em títulos bancários e em gêneros de ourivesaria.
Consta-me que Leontina se lembrara então de Silvestre; mas ignorava que destino ele tivesse. Incumbiu um compadre de indagar se estava no Porto o homem; a resposta demorou-se alguns dias, sete, creio eu, e ao sexto já ela estava em indagações da vida e costumes dum sujeito de bigode e pêra, que à mesma hora de cada tarde lhe passava à porta num tiburi, tirado por uma orça. Fácil lhe foi saber que o sujeito fora, cinco anos antes, algibebe, tirara o prêmio da Loteria de Espanha e fechara a loja. Era o mesmo algibebe que levara no colete de veludinho com a casca de melão. Que mudança de cara e de maneiras ele fizera! O dinheiro faz essas mudanças e outras mais espantosas ainda. Chegaram à fala, deram-se explicações e casaram. Eu tive ocasião de os ver ontem no seu palacete a Buenos Aires. Estão gordos, ricos e muito considerados na sua rua.
II
A segunda era também minha vizinha. A casa em que eu vivia formava o cunhal dum quarteirão, com janelas para duas ruas. Assim podia passear os dois corações duma para outra janela sem dar suspeitas da minha doblez.
Nunca pude saber o nome da dama, nem lhe vi a preceito a cara. Entreluziam-lhe os olhos nas tabuinhas verdes das persianas, olhos que abonavam o restante das belezas. Vi-a uma ou outra vez na rua; mas o meu pudor era o mais vigilante anjo-da-guarda que ele tinha. Escrevi-lhe uma carta em vinte páginas e icei-lhe numa cartonagem de amêndoas, que ela, à meia-noite, pendurou da janela. No dia seguinte não a vi. Afligi-me até à desesperação, tomando como zombaria semelhante resposta à minha carta. Desafoguei na sincera amizade de um amigo, e este consolou-me, dizendo que a mulher podia estar doente, podia estar apaixonada; e, na segunda hipótese, fugia à paixão para respeitar os deveres, se os tinha.
Ao outro dia abriu-se a janela, e a persiana baixou logo, como era de uso. As tabuinhas obedeceram ao impulso da mão divina, ficando horizontais. Vi-lhe os olhos, vi-lhe o sorriso, vi-lhe um trejeito de gratidão, e compreendi que me mandava ir à meia-noite debaixo da janela.
Fui com uma legião de amorinhos a volitar ao redor de mim. A patrulha viu-me atravessar a rua e conheceu, pelo passo, que eu era um mortal ditoso. Parou quando eu parei. Perguntou-me o que fazia eu ali quieto. Respondi-lhe que tomava a fresca; e os janízaros responderam: “Veja lá que se não constipe...”.
Daí a pouco desceu a coifinha com um bilhete em abraço e eu lancei na coifa uma poesia intitulada: Ela! Entrei no meu quarto, abri o papelucho, e li:
Gosto muito do seu estilo. Continue, que me entretém. Ontem não lhe apareci porque fui a Oeiras, e li a sua carta na presença de Netuno. Escreva muito, que escreve muito bem.
Reli esta coisa e pus a mão sobre o coração injuriado. Não podia dormir. Saí a resfriar a cabeça para não a partir em casa. O escárnio ia atrás de mim, apupando-me. Parei na azinhaga do Arco do Cego e senti-me febril. Às cinco horas da manhã, fui a uma das barcaças e tomei um banho no Tejo. Recolhi-me com uma catarral e estive onze dias de cama. Quando me ergui, magro e lívido, ouvi dizer à dona da casa que o galego, aguadeiro da casa fronteira, viera duas vezes perguntar por mim, com ordem de alguém. O espinho da irrisão, o tremendo ridículo, salvou a minha dignidade. Nunca mais abri aquela janela, nem vi mais a vizinha. Assim terminou o meu segundo amor.
Um caso me fez saber quem era aquela senhora, que eu desculpo e até respeito. Fora menina de finíssima educação, natural de Beja. Apaixonou-se por um conde de Lisboa e fugiu aos pais, cuidando que a ignomínia lhe viria a dar um marido. O conde deu-lhe casa, mesada e criados. Assim estava vivendo quando a conheci. Era amarga a existência da pobre senhora. O amante casara meses antes, para desempenhar o vínculo deteriorado. Do Património da esposa alargou a mesada à amante, que bebia. Deus sabe com que lágrimas, este segundo cálice de vilipendiosa dependência. Escrevera ela nesse tempo ao pai, pedindo-lhe perdão e asilo. Nunca teve resposta. Quando me deram estes esclarecimentos (1854), continuava ela a viver a expensas do conde e tinha um filho de cinco anos. Não sei mais nada. Ainda há pouco li o bilhete, recebido em 1849, e achei-lhe muitíssima graça. Deus lhe perdoe a noite que me deu e os onze dias de catarro, que me estragaram os brônquios para sempre !
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.