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#Romances#Literatura Portuguesa

Uma praga rogada nas escadarias da forca

Por Camilo Castelo Branco (1883)

martírio. Impelido por pontapés, foi lançado fora da porta do quarto. As fôrças faltaram-lhe. O sangue corria a jorros. Esvaiu-se a cabeça, e caiu.

O fidalgo chamou dois criados, e mandou pôr aquêle homem fora da porta. Era ao anoitecer. O enjeitado foi arremessado à rua. Quando recuperou os sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a sua consciência, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua desgraça pelos lábios molhados de fel.

E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem sorrir assim são as que Deus elege

para a santidade da bem-aventurança.

- IX -

Bernardo procurou um refúgio em casa de uma mulher pobre que o tratara sempre com amor, matandolhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiataria não valia o pão de cada dia. Esta mulher fôra ama da roda no tempo em que Bernardo lá fôra lançado. Supunha ela que talvez o tivesse alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta só conjectura atraía-a para êle com instinto maternal.

O enjeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe inspirasse um destino. Esperou.

Em Vizeu, falava-se muito dêste sucesso, divulgado por Francisco de Lucena, e por João Leite.

Bernardo era procurado para ser punido, e quem mais diligências fazia para isso era o juiz de fora Paulo Botelho.

O honrado môço, quando se viu na penosa situação de agenciar a sua vida, por não poder sair da pobre casa em que vivia, impelido pela sua inocência, procurou o juiz de fora e expôs-lhe com a mais eloqüente naturalidade a injustiça com que fôra maltratado, e com que estava sendo perseguido.

Paulo Botelho quis espancá-lo com um chicote por ter tido a audácia de entrar em sua casa sem ferros nos pés. Olhou em redor de si procurando um aguazil para fazê-lo prender traiçoeiramente; mas o generoso mancebo, adivinhando-lhe as intenções disse que não precisava fingir-se; que êle dava a sua palavra de honra de não retirar-se da casa em que estava vivendo, e que mandasse sua senhoria capturá-lo quando quisesse. O juiz riu-se da palavra de honra na bôca dum criado de servir, e mandou-o embora, por não ter a propósito um meirinho.

Bernardo encontrou, ao retirar-se, nas escadas do ministro, João Leite, que apeava duma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro do burguês opulento.

João Leite fixou-o com ar de soberano desprêzo e perguntou-lhe:

- És tu o lacaio de Francisco de Lucena?

- Fui o lacaio do Sr. Francisco de Lucena - respondeu Bernardo com dignidade.

- E tens o atrevimento de aparecer entre pessoas de bem?

Bernardo sufocou uma resposta amarga, e fêz uma continência respeitosa para retirar-se.

- Vem cá, miserável! - tornou João Leite. - Tu és o amante da filha do teu amo?

- Respeitei-a muito, por ser filha de meu amo, enquanto o servi. Hoje respeito-a, porque lhe não conheço a menor falta que a desonre!

- Nem ao menos a desonra de receber as tuas afeições, lacaio?

- Eu não lhas ofereci nunca, senhor.

- Ofereceu-tas ela, sevandija?

- Não, senhor.

- Mas ela escrevia-te...

- Sem ser criminosa, por isso...

- Então achas que não é crime escrever a um bandalho?

- Será, se V. S. o quer...

- Tenho pena de sêres um réptil que faz nojo esmagar com a sola da bota! Se tivesses um nome...

- Tenho um caráter, senhor!

Bernardo respondeu com altivez; João Leite riu-se com desprêzo, e olhando-o da cabeça aos pés, replicou:

- Tu sabes que não podes ter caráter, enjeitado!?

- Então, terei um braço...

- Um braço! - atalhou o fidalgo em projeto, imprimindo-lhe um valente pontapé, que o fêz descer três escadas maquinalmente.

Bernardo assumira tôda a dignidade do homem de coração ultrajado. João Leite achou-se comprimido entre os braços do sevandija que êle supunha fugir ao primeiro pontapé para evitar o segundo.

Quis desfazer-se, de pronto, dêste empecilho, e não pôde, porque os pés falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o pêso sôbre os degraus de pedra. Tirou rápido de um punhal, e roçou, com êle duas vêzes sôbre o braço direito de Bernardo, que o desarmou, no ato que uma terceira punhalada lhe resvalara no peito. O enjeitado sentiu-se ferido: vacilou um instante na resolução que se debatia entre o homicídio e o perdão. Venceu o primeiro. Aquêle punhal tinto de sangue inocente, pela segunda vez, derramado, entrou no coração de João Leite, e matou-o.

Isto foi obra dalguns segundos, João Leite gritara nas convulsões da morte; acudiram os criados, e encontraram Bernardo da Silva, de braços cruzados ao pé do cadáver, que vibrava nos seus derradeiros estorcimentos.

Paulo Botelho também acudiu. Primeiro recuou aterrado; depois gritou "Matem êsse homem!" E vendo que ninguém de pronto lhe aceitava o diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.

(continua...)

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