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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Palmira me disseram que se chamava a gentil criatura.

Posto que eu, em Coimbra e no Porto, me houvesse relacionado algum tanto intimamente com Afonso de Teive, ainda assim, azado o ensejo de perguntar-lhe pormenores daquela conquista - conquista se diz vulgarmente do que devera mais de siso chamar-se, farta vezes, derrota -, nada indaguei, visto que ele, com insólito resguardo, se absteve de me dar ansa a esgaravatar-lhe coisas particulares da vida - particulares, dissemos, para sustentar à palavra a fama que o dicionário faz correr; sendo aliás de toda a evidência que não há aí coisa mais nua, mais pública e assoalhada que tudo quanto se chamam particularidades da vida privada, mormente quando o divulgarem-se torna e redunda em filáucia de uns tolos célebres, que seriam invejáveis, se as próprias coroas, com que cingem as frontes, lhes não dessem muito que doer com espinhos escondidos - quero dizer em estilo espalmado: se as próprias mulheres, que lhes dão os triunfos, não fossem os instrumentos com que a justiça infinita inflige aos vangloriosos o castigo infernal do. seu orgulho.

Foi-me preciso escutar os boatos correntes à conta da mulher que Afonso de Teive me não apresentou. Observei que ninguém a julgava honestamente, e assim mesmo ninguém lhe dava um epíteto indecoroso. A civilização beneficia assim as mulheres que não podem adjectivar-se publicamente virtuosas, nem mesmo quando visitam com a esmola a mansarda do doente desvalido. Nesta especialidade, o jornalismo comporta-se louvavelmente. Quando um localista apregoa o donativo de alguns lençóis que opulenta matrona, por variar prazeres de alma, já cansada dos transitórios gozos de outra espécie, mandou a um asilo de lázaros, e diz que a humanidade abençoa a virtuosa senhora, não nos havemos de entalar com este decreto de virtude: a humanidade manda que o engulamos. O localista tem razão: é bom que a palavra virtude sirva de piedoso visco à liberalidade de pessoas, que desejam alguma vez, ao lerem-se virtuosas, experimentar a satisfação de se verem ir à posteridade na secção do noticiário.

O noticiário! Ninguém, que me conste, aprofundou ainda o que esta palavra encerra em si de humanitário! S. Paulo, todos os evangelistas, as catequeses derramadas de ângulo a ângulo da Terra, em matéria de caridade, não se avantajaram à missão do noticiário.

Se eu não tivesse de convicção minha que as acções meritórias dos gabos do mundo, quando disparam em proveito geral, não podem desmerecer no juízo divino, havia de cuidar que a mão, aberta em fontes caudais de ouro vertido, como bálsamo, sobre as chagas sociais, bateria às portas da região pavorosa, onde o pecado da soberba, aliado da vaidade, sofre a condenação prescrita nos códigos de todas as religiões. A vaidade levanta o palácio em que se acolhem os desamparados de um tecto de palha e de uma enxerga de folha. A vaidade doura-lhe os frontais do asilo, atapeta-lhe os pórticos, ventilalhe por janelas de luxuosa alvenaria os dormitórios, tudo lhe magnífica e opulenta em pedra e estofo: tudo lhe dá em desconto das dores da velhice alanceada de enfermidades; tudo, exceto o pão da alma, a doutrina da paciência, a comunhão santíssima, que refaz o espírito quando o corpo desfalece. Tudo lhe dá, excepto um padre, um intérprete do Cristo, que dê vida de amor ao seio traspassado e palavra de pai aos lábios roxos daquele crucificado, que lá do fundo do dormitório contempla inertemente o deslaçar-se fibra a fibra daqueles corpos, ali postos como presa disputada, por mais alguns dias à aniquilação...

- E não é isto o máximo quilate da beneficência?

Que hei-de eu responder ao leitor ilustrado, que me interrompe, assim de golpe, um discurso que lhe havia de mortificar o fôlego, pelo menos?!

Peço-lhe que me deixe contar-lhe em cinqüenta linhas, pouco mais ou menos, como eu vi, numa terra destes remos, criar-se e prosperar um asilo de pobres.

D. Elvira era uma dama casada, que não tinha por seu marido aquele amor que dá ao peito de boa esposa arnês de aço contra as frechas de um cupido estranho. O marido, minimamente confiado em seus direitos, descuidou-se. Aqui está um mal enorme de onde vamos ver brotar uma enchente de benefícios à humanidade. O paradoxo demonstra-se deste teor:

(continua...)

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