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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma noite

Por Machado de Assis (1870)

CLÉON

Esquecer? sabes tu, Mirto, se a alma esquece o prazer que a fulmina, e a dor que a fortalece?

MIRTO

Tens na ausência e no tempo os velhos pais do [olvido,

O bem não alcançado é como o bem perdido, Pouco a pouco se esvai na mente e coração; Põe o mar entre nós... dissipa-se a ilusão.

CLÉON

Impossível!

MIRTO

Então espera; algumas vezes

A fortuna transforma em glórias os reveses.

CLÉON

Mirto, valem bem pouco as glórias já tardias.

MIRTO

Um só dia de amor compensa estéreis dias.

CLÉON

Compensará, mas quando? A mocidade em flor Bem cedo morre, e é essa a que convém a amor. Vejo cair no ocaso o sol da minha vida.

MIRTO

Cabeça de poeta, exaltada e perdida!

Pensas estar no ocaso o sol que mal desponta?

CLÉON

A clepsidra do amor não conta as horas, conta As ilusões; velhice é perdê-las assim;

Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.

MIRTO

Não hás de envelhecer; as ilusões contigo Flores são que respeita Éolo brando e amigo. Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.

CLÉON

Se eu a Lesbos não vou.

MIRTO

Podem colher-se em Samos.

CLÉON

Voltas breve?

MIRTO

Não sei.

CLÉON

Oh! sim, deves voltar!

MIRTO

Tenho medo.

CLÉON

De quê?

MIRTO

Tenho medo... do mar.

CLÉON

Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica. Lesbos é para ti mais formosa e mais rica. Mas a pátria é o amor; o amor transmuda os ares. Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares. Da importuna memória o teu passado exclui; Vida nova nos chama, outro céu nos influi. Fica; eu disfarçarei com rosas este exílio; A vida é um sonho mau: façamo-la um idílio. Cantarei a teus pés a nossa mocidade. A beleza que impõe, o amor que persuade, Vênus que faz arder o fogo da paixão,

Teu olhar, doce luz que vem do coração. Péricles não amou com tanto ardor a Aspásia, Nem esse que morreu entre as pompas da Ásia, A Laís siciliana. Aqui as Horas belas

Tecerão para ti vivíssimas capelas.

Nem morrerás; teu nome em meus versos há de ir, Vencendo o tempo e a morte, aos séculos por vir.

MIRTO

Tanto me queres tu!

CLÉON

Imensamente. Anseio

Por sentir, bela Mirto, arfar teu brando seio, Bater teu coração, tremer teu lábio puro, Todo viver de ti.

MIRTO

Confia no futuro.

CLÉON

Tão longe!

MIRTO

Não, bem perto.

CLÉON

Ah! que dizes?

MIRTO

Adeus?

(passa junto da mesa da direita e vê o rolo de papiro) Curiosa que sou!

CLÉON

São versos.

MIRTO

Versos teus?

(Lísias aparece ao fundo.)

CLÉON

De Anacreonte, o velho, o amável, o divino.

MIRTO

A musa é toda iônia, e o verso é peregrino. (abre o papiro e lê)

"Fez-se Níobe em pedra e Filomena em pássaro. "Assim

"Folgaria eu também me transformasse Júpiter "A mim.

"Quisera ser o espelho em que o teu rosto mágico "Sorri;

A túnica feliz que sempre se está próxima "De ti;

"O banho de cristal que esse teu corpo cândido "Contém;

"O aroma de teu uso e donde eflúvios mágicos "Provêm;

"Depois esse listão que de teu seio túrgido "Faz dois;

"Depois do teu pescoço o rosicler de pérolas; "Depois...

"Depois ao ver-te assim, única e tão sem êmulas "Qual és,

"Até quisera ser teu calçado, e pisassem-me "Teus pés."[1]

Que magníficos são!

CLÉON

Minha alma assim te fala.

MIRTO

Atendendo ao poeta eu pensava escutá-la.

CLÉON

Eco do meu sentir foi o velho amador;

Tais os desejos são do meu profundo amor.

Sim, eu quisera ser tudo isto - o espelho, o banho, O calçado, o colar... Desejo acaso estranho,

Louca ambição talvez de poeta exaltado...

MIRTO

Tanto sentes por mim?

Cena VI

CLÉON, MIRTO, LISIAS

LÍSIAS

(entrando)

Amor, nunca sonhado.

Se a musa dele és tu!

CLÉON

Lísias!

MIRTO

Ouviste?

LISIAS

Ouvi

Versos que Anacreonte houvera feito a ti,

Se vivesses no tempo em que, pulsando a lira, Estas odes compôs que a velha Grécia admira. (a Cléon)

Quer falar-te um sujeito, um Clínias, um colega, Ex-mercador, como eu.

MIRTO

Ai, que importuno!

LÍSIAS

Alega

Que não pode esperar, que isto não pode ser, Que um processo... Afinal não no pude entender. Pode ser que contigo o homem se acomode. Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?

CLÉON

(continua...)

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