Por Machado de Assis (1872)
Alberto tinha deixado a mala em um hotel onde alugou sala e quarto. O comendador, não desejando que o rapaz se sacrificasse mais aquela noite, que pedia descanso, pediu a Alberto que não fizesse cerimônia, e apenas julgasse que eram horas se fosse embora. Alberto, entretanto, parecia disposto a não usar tão cedo da faculdade que lhe dava Nunes. Amável, conversado e prendado, o nosso Alberto entreteve a família até muito tarde; mas por fim saiu, com grande pena de D. Feliciana e grande satisfação de Luísa. Por que motivo esta satisfação? Tal era a pergunta que a si mesmo fazia o comendador quando Alberto se retirara.
— Sabes que mais, Feliciana? disse o Nunes apenas se achou no quarto com a mulher, creio que a rapariga não simpatizou com o Alberto.
— Não?
— Não tirei os olhos dela, e posso afiançar que parecia extremamente aborrecida.
— Pode ser, observou D. Feliciana, mas isso não é uma razão.
— Não é?
— Não é.
Nunes abanou a cabeça.
— Raras vezes se pode vir a gostar de uma pessoa de que se não gostou logo, disse ele sentenciosamente.
— Oh! isso não! respondeu logo a mulher, também eu quando te vi antipatizei solenemente contigo, e entretanto...
— Sim, mas isso é raro.
— Menos do que pensas.
Houve um silêncio.
— E contudo este casamento era muito do meu agrado, suspirou o marido.
— Deixa estar que eu arranjo tudo.
Com estas palavras de D. Feliciana terminou a conversa.
IV
Qual era a causa da tristeza ou aborrecimento de Luísa?
Quem a adivinhou foi Chiquinha. A causa foi um despeito de moça bonita. Alberto era amável demais, amável com todos, olhando para ela com a mesma indiferença com que olhava para as outras pessoas.
Luísa não queria ser olhada assim.
Imaginava ela que um rapaz, que fizera uma viagem para vir apresentar-se candidato à sua mão; devia prestar-lhe alguma homenagem, em vez de a tratar com a mesma delicadeza que dispensava aos outros.
No dia seguinte estas impressões de Luísa estavam mais dissipadas. O sono foi a causa disso, e também a reflexão.
— Talvez que ele não ousasse... pensava ela.
E esperou que ele lá fosse nesse dia.
Pouco depois do almoço recebeu Luísa uma carta do alferes Coutinho. O namorado já tinha notícia do pretendente, e escrevera a epístola meia lacrimosa, meia ameaçadora. Era notável o seguinte período:
..... Podes, mulher ingrata, calcar a teus pés o meu coração, cujo crime foi amar-te com todas as suas forças, e palpitar por ti a todas as horas!... Mas o que tu não podes, o que ninguém poderia nem Deus, é fazer com que eu te não ame agora e sempre, e até debaixo da fria campa!... E um amor destes merece desprezo, Luísa?...
A epístola do alferes impressionou a moça.
— Este ama-me, pensava ela, e o outro!...
O outro chegou pouco depois, já reformado na roupa, já mais cortesão com a moça. Um
quarto de hora bastou para que Luísa modificasse a sua opinião a respeito do rapaz. Alberto aproveitou as liberdades que lhe davam com ela para lhe dizer que a achava mais bela do que a sua imaginação sonhara.
— E de ordinário, acrescentou ele, a nossa imaginação nos ilude. Se desta vez estive abaixo da realidade, a causa disto é que a sua beleza está além da imaginação humana. Neste sentido fez o noivo um discurso obscuro, oco e mal alinhavado, que ela ouviu com delícias.
— Veio de tão longe para zombar de mim? perguntou ela.
— Zombar! disse Alberto ficando sério.
— Oh! perdão, disse ela, eu não queria ofendê-lo; mas creio que isso só por zombaria se poderia dizer...
— Oh! nunca! exclamou Alberto apertando docemente a mão de Luísa. O comendador surpreendeu esta cena, e a sua alegria não conheceu limites. Todavia era conveniente dissimulá-la, e assim o fez.
— Tudo caminha bem, dizia ele consigo. O rapaz não é peco.
E não era. Nessa mesma tarde perguntou ele a Luísa se queria aceitá-lo por esposo. A moça não contava com esta pergunta à queima-roupa e não soube que lhe responder.
— Não quer? perguntou o rapaz.
— Eu não disse isso.
— Mas responda.
— Isso é com meu pai.
— Com seu pai? perguntou Alberto espantado; mas ele governa então o seu coração?... Luísa nada respondeu, nem podia responder. Houve um longo silêncio; Alberto foi o primeiro que falou.
— Então, disse ele; que me responde?
— Deixe-me refletir.
Alberto fez uma careta.
— Refletir? perguntou ele. Mas o amor é uma coisa e a reflexão é outra. É verdade, respondeu a moça; e neste caso, deixe que eu o ame.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Uma loureira. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 10, n. 4, p. 110-128, abr. 1872.