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#Contos#Literatura Brasileira

Um homem superior

Por Machado de Assis (1873)

Não nascera aquela moça entre brocados nem fora educada entre as paredes de casa rica; tinha, porém, um instinto do belo e um grande dom de observação, mediante o que conseguira habituar-se facilmente ao mundo novo em que entrara.

Eram seis horas da tarde quando Clemente Soares chegou à casa do comendador, onde foi recebido com todos os sinais de simpatia.

— Aposto que o Medeiros lhe deu todo este incômodo, disse o comendador Brito, para me mandar uns papéis...

— Trago, com efeito, esses papéis, respondeu Clemente, mas não é esse o principal objeto da minha visita. Trago-lhe a caixa de rapé, que V. Excia. esqueceu lá. E dizendo isto tirou do bolso o aludido objeto, que o comendador recebeu com alvoroço e reconhecimento.

— Eu havia de jurar que tinha deixado na casa de João Pedro da Veiga, onde fui comprar uns bilhetes para serra-acima. Agradeço-lhe muito a sua fineza; mas por que veio pessoalmente? por que tomou este incômodo?

— Quando fosse incômodo, respondeu Clemente, e está longe disso, ficaria bem pago com a honra de ser recebido por V. Excia.

O comendador gostava de ouvir finezas como todos os mortais que vivem debaixo do sol. E Clemente Soares sabia-as dizer de modo especial. De maneira que já essa noite passou-a Clemente em casa do comendador, de onde saiu depois de prometer que voltaria lá mais vezes.

Trouxe boas impressões do comendador; não assim de Carlotinha que parecia extremamente severa com ele. Debalde o rapaz a cercava de atenções e respeitos, afetando não a ter conhecido, quando aliás podia alegar um beijo que lhe dera uma vez, a furto, entre duas janelas, no tempo do namoro...

Mas não era Clemente Soares homem que envergonhasse ninguém, muito menos uma moça que ainda podia fazê-lo feliz. Por isso não saiu dos limites do respeito, convencido de que a pertinácia vence tudo.

V

E venceu.

Ao cabo de um mês já a esposa do comendador não se mostrava arisca e o tratava com vivos sinais de estima. Clemente supôs que estava perdoado. Redobrou de atenções, tornou-se um verdadeiro escudeiro da moça. O comendador morria por ele. Era o ai-jesus da casa.

Carlotinha estava mais bela do que nunca; antigamente não podia realçar as graças pessoais com os inventos da indústria elegante; mas agora, que lhe sobravam meios, a boa moça tratava quase exclusivamente de pôr em relevo o seu airoso porte, tez morena, olhos negros, testa elevada, boca de Vênus, mãos de fada, e o mais que a imaginativa dos namorados e dos poetas costuma dizer em casos tais.

Estaria Clemente apaixonado por ela?

Não.

Clemente antevia que os dias do comendador não eram longos, e se havia de ir tentar alguma empresa, mais duvidosa e arriscada, não era melhor continuar aquela já começada alguns anos antes?

Ignorava ele por que concurso de circunstâncias Carlotinha tinha escolhido aquele marido, cujo único mérito, para ele, era ter uma grande riqueza. Mas concluía de si para si que ela seria essencialmente vaidosa, e para captar-lhe as boas graças, fez e disse tudo o que pode seduzir a vaidade de uma mulher.

Um dia ousou fazer uma alusão ao passado.

— Lembra-se, disse ele, da Rua das Mangueiras?

Carlotinha franziu a testa e saiu da sala.

Clemente ficou fulminado; meia hora depois estava reposto na sua habitual indolência e mais disposto que nunca a perscrutar o coração da moça. Julgou, porém, que era prudente deixar passar algum tempo e procurar outros meios.

Passeava uma tarde com ela no jardim, enquanto o comendador discutia com Medeiros debaixo de uma mangueira sobre alguns assuntos de comércio.

— Que me disse outro dia o senhor a respeito da Rua das Mangueiras? perguntou repentinamente Carlotinha.

Clemente estremeceu.

Houve um silêncio.

— Não falemos nisso, disse ele sacudindo a cabeça. Deixemos o passado que morreu. Não respondeu a moça e os dois continuaram a passear silenciosamente até que se acharam assaz distantes do comendador.

Clemente rompeu o silêncio:

— Por que me esqueceu tão depressa? disse ele.

Carlotinha levantou a cabeça com um movimento de surpresa; depois sorriu-se com ironia e disse:

— Por que o esqueci?

— Sim.

— Não foi o senhor quem me esqueceu?

— Oh! não! Eu recuei diante de uma impossibilidade. Era infeliz nesse tempo; não tinha os meios necessários para desposá-la; e preferi o desespero... Sim, o desespero! Nunca a senhora há de ter idéia do que sofri nos primeiros meses da nossa separação. Sabe Deus que lágrimas de sangue chorei no silêncio... Mas era necessário. E bem vê que foi obra do destino, porque a senhora é hoje feliz.

A moça deixou-se cair em um banco.

— Feliz! disse ela.

— Não é?

Carlotinha abanou a cabeça.

— Por que se casou então com...

Estacou.

— Acabe, disse a moça.

— Oh! não! perdoe-me!

Foram interrompidos por Medeiros, que vinha de braço com o comendador, e disse em voz alta:

(continua...)

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