Por Machado de Assis (1994)
D. CAT. Teimoso sois! sempre essas idéias de África...
CAMÕES ou Ásia. Que tem isso? Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora...
D. CAT. Não imagino nada; vós sois meu, tão-só meu, tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAMÕES Não faltará quem vo-los faça, e da maior perfeição.
D. CAT. Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós.
CAMÕES( recitando ).
Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso...
D. CAT. Não acabeis, que me obrigaríeis a fugir de vexada.
CAMÕES De vexada! Quando é que a rosa se vexou, porque o sol a beijou de longe?
D. CAT: Bem respondido, meu claro sol.
CAMÕES Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me ouvis?
D. CAT. (enlevada). Ouço, ouço.
CAMÕES Crer que a última palavra de vossos lábios será o meu nome. Será?... Tenha eu esta fé, e não se me dará da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.
D. CAT. Acabai!
CAMÕES Que mais?
D.CAT. Não sei; mas é tão doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.
CAMÕES Ai de nós! A perpetuidade é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala!
(D. CATARINA afasta-se rapidamente) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim.
D. CAT. Na verdade, se nos vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus...
CAMÕES Medrosa, eterna medrosa!
D. CAT. Pode ser que sim; mas não está isso mesmo no meu retrato? Um colhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento...
CAMÕES
Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.
D. CAT. (indo a ele). Pois então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às vezes foge, é porque a espreitam; se você não responde, é porque outros ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mão) Adeus!
CAMÕES Ide-vos?
D. CAT. A rainha espera-me. Audazes fomos, Luís. Não desafiemos o paço... que esses reposteiros...
CAMÕES Deixa-me ir ver!
D. CAT. (detendo-o). Não, não. Separemo-nos.
CAMÕES Adeus! (D. CATARINA dirige-se para a porta da esquerda;
CAMÕES, olha para a porta da direita).
D. CAT. Andai, andai!
CAMÕES Um instante ainda!
D. CAT. Imprudente! Por quem sois ide-vos, meu Luís!
CAMÕES A rainha espera-vos!
D. CAT. Espera.
CAMÕES Tão raro é ver-vos!
D. CAT. Não afrontemos o céu... podem dar conosco...
CAMÕES Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e à fé que o faria respeitar!
D. CAT. (aflita, pegando-lhe na mão). Reparai, meu Luís, reparai; onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado. Peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?
CAMÕES Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!
D. CAT. Adeus!
CAMÕES (com a mão dela presa). Adeus!
D. CAT. Ide... deixai-me ir!
CAMÕES Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela.
D.CAT. Cautela, não vos reconheçam.
CAMÕES Cautela haverei; mas que me reconheçam, que tem isso? Embargarei a palavra ao importuno.
D.CAT. Sossegai. Adeus!
CAMÕES Adeus! (D. CATARINA dirigi-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que CAMÕES saia. CAMÕES corteja-a para um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. – Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece CAMINHA. – D. CATARINA dá um pequeno giro e sai precipitadamente. – CAMÕES detém-se. Os dous homens olham-se por um instante).
CENA IX
(continua...)
ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.